segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Porque não faz sentido dizer que uma mulher é machista.

E porque pessoas brancas não sofrem racismo.

comercial antigo que achei no google
Eu passei muito tempo da minha vida acreditando em mulheres machistas. Acreditando que mulheres podem ser tão machistas quanto caras. Bem, hoje já não tenho essa opinião. Ainda não sou essa pessoa evoluída espiritualmente que consegue ser um amor e explicar de forma extremamente paciente para mulheres que demonstrem opiniões machistas, mas estou tentando melhorar. Ainda não consigo sentar, conversar de boa e ser mais paciente com uma mulher, e eu tenho dúvidas se conseguirei isso algum dia, mas eu estou constantemente lembrando à mim mesma de que é impossível existir mulheres machistas, assim como é impossível pessoas negras serem racistas. É um processo de aprendizado. Ainda chego lá.

A maior dificuldade que as pessoas tem de entenderem esse ponto é porque nós associamos machismo à uma mera opinião de que homens sejam superiores às mulheres. Então se cria páginas como Moça, Você é Machista veiculando esse tipo de pensamento: de que machismo se trata de uma opinião que, por acaso, é a que a sociedade tem. Como se machismo fosse uma "ideologia" que "basta pensar diferente". Como se o machismo fosse apenas uma linha de pensamento que vai contra as mulheres e é por isso que temos que mudar as coisas, e adotarmos uma linha de pensamento que iguale mulheres aos homens. Essa mesma linha de pensamento vai lá e veicula ideias de que feminismo se trata apenas de igualdade, sem pensar criticamente no que se trata essa igualdade. O que se torna muito curioso de se observar porque você verá feministas X veiculando ideias de que feminismo não é sobre mulheres superiores aos homens, e sim mulheres iguais aos homens, e então você vê outras feministas Y completamente ofendidas com essa ideia - e há essa diferença de opinião. Ao meu ver, se trata de um desentendimento que acontece porque nem as feministas X pensam criticamente sobre a ideia que elas estão veiculando, nem as feministas Y estão conseguindo explicar claramente o que elas querem dizer ao não gostarem dessa imagem que se perpetua.

Eu não posso e não quero culpar as feministas X. Eu fui uma delas por muito tempo (e vocês podem verificar isso pelos textos mais antigos desse blog e no de Pernície, por exemplo) até perceber, depois de alguma leitura, no quão mais crítica eu precisava ser sobre meu próprio movimento. Não acho que sair criticando elas como se elas fizessem tudo errado seja o caminho.

Então, temos os seguintes tópicos:
a) Mulheres não podem ser machistas.
b) O feminismo não se trata de "igualdade" entre gêneros.

Por quê? Veremos:

1) Premissa errada um: machismo não é apenas uma "ideia" errada.

Eu sei que se vocês forem na Wikipedia ou algo parecido, é algo assim que encontrarão. Mas na prática, a coisa funciona de uma maneira um pouco diferente. Eu gosto de pensar que o machismo [homens legais, fortes, corajosos que morreram em guerras > mulheres inúteis, fracas, donzelas em perigo] é uma crença que só se sustenta dentro do patriarcado, e uma crença fundamental para que o patriarcado se perpetue. Quando uma pessoa é machista, o que ela está fazendo é se servir de uma crença corrente para oprimir outras pessoas. Porém uma mulher não pode oprimir a si mesma. Ela não tem como oprimir outras mulheres por ser mulher. Ela não tem esse poder, porque mulheres não tem esse poder. Ela pode até se erguer, dizer que é machista e repetir mil vezes que mulher tem que ficar em casa e homem no trabalho, mas ela nunca será a beneficiária disso. Quem ganha com esse jogo é o homem, e só o homem.

Sim, eu entendo que é quase inevitável surtar e dizer que uma mulher é machista quando você vê uma garota reafirmando que machismo é legal e que feministas são chatas bobas cara de melão, e eu sei que dá uma louca vontade de sacudi-la até ela perceber o que está fazendo, mas é preciso lembrar que ela, por mais que esteja demonstrando ideias machistas, não é a beneficiária disso. Ela não vai receber nenhum agrado, não vai ser elevada ao mesmo status do seu opressor. Vai continuar a ser oprimida assim como qualquer outra mulher. Ainda vale apontar outro ponto: ser mulher é difícil. Ser parte de qualquer minoria é difícil. E pessoas querem se incluir na sociedade. Não todas, eu sei, mas uma maioria muito significativa tem necessidade de aprovação, necessidade de ser incluída, necessidade de ter suas ideias validadas. Considerando que nós somos educadas a sentir que precisamos de aprovação masculina o tempo todo, então uma mulher que perpetue ideias machistas não está fazendo mais do que procurar ser aprovada. Eu não sei vocês, mas por mais que eu fique maluca ao ver esse tipo de coisa, não consigo não compreender. Eu tenho que compreender. Eu preciso entender que é uma maneira que aquela mulher encontrou de sobreviver na sociedade: concordar com seu opressor e ficar na linha.

Então... vamos pegar outros exemplos. João é cis e é branco, e é gay. Ser gay é muito difícil para ele, porque sua família não gostou nadinha da história e ele vive cheio de culpa internalizada. João acha que "pintosas" são um problema para os gays. Ele acredita que se gays fossem todos "normais" e não ficassem saltitando por aí, espalhando purpurina com as cores do arco-íris, então os gays teriam muitos menos problemas de serem aceitos pela sociedade. Se uma pessoa heterossexual acredita nisso, bem, ela é homofóbica. Ela está oprimindo outras pessoas que são gays, porque ela tem poder para tal. A sociedade deu poder suficiente à pessoa heterossexual de oprimir outras minorias no campo "orientação sexual". Mas João não. João acreditar nisso não fará com que ele possa oprimir outros gays. Ele está constantemente se policiando para se enquadrar nas regras da sociedade e ser aceito por uma sociedade que não o aceitará de qualquer maneira. João não tem poder suficiente para executar essa homofobia contra si próprio, simplesmente porque a sociedade não lhe deu esse poder.

Porém João pode ser bifóbico. Se ele argumentar que bissexuais são pessoas indecisas e que são apenas "gays enrustidos que atrapalham o andar da carruagem", bem, está sendo bifóbico. João é branco e cisgênero, e é homem, e ele pode ser racista, transfóbico e machista. Ele tem poder suficiente para veicular esses tipos de opressão. Como um homem, ele pode oprimir mulheres, e como um homem cis, pode oprimir pessoas transgêneras. Nós vivemos em uma sociedade que consiste em dar poder às determinadas pessoas para oprimir outras. E embora haja uma classe composta de homens brancos, cis, hetero, etc que sejam como uma Irmandade dos Senhores Combos de Privilégios, ainda assim todas as outras pessoas restantes podem ter características que as façam ter uma parcela de "ser opressor". Eu, enquanto mulher, não sou a beneficiada pela misoginia. Se eu chamo outra garota de "vadia", eu não estou me beneficiando disso - uma hora eu vou receber o mesmo tratamento. Mas eu sou cis, e enquanto eu for cis, eu tenho pleno poder ser transfóbica que a sociedade me conferiu. O Estado com suas estruturas permite que eu invada privacidade de pessoas trans, pergunte à elas sobre seus órgãos genitais, deslegitime suas identidades e determine que seus corpos são errados - eu sou autorizada para ser transfóbica, porque eu me beneficio de um sistema transfóbico enquanto pessoa cis, recebendo todos os privilégios de uma sociedade cissexista.

Mas eu não recebo os privilégios de uma sociedade misógina ou de uma sociedade racista. Eu nunca receberei. Essa é a questão: você é a pessoa que está se beneficiando com essa parcela do sistema? Você é a pessoa que tem poder para oprimir outras pessoas? Se você tem esse poder, sim, você é machista, homofóbico, racista, etc. Se você não tem esse poder, bem, você está veiculando ideias referentes à um padrão que te odeia, te exclui e te ojeriza. Mas não, você não poder suficiente para oprimir outras pessoas - por mais que você ache que tenha.
essa eu achei no facebook, não sei quem fez
2) Premissa errada dois: feminismo não é sobre igualdade.
Esse é um dos pontos mais controversos, mas eu acho mais fácil de explicar. É fácil dizer aos caras para eles ficarem tranquilos que não estamos tentando instaurar nenhum matriarcado e escravizar todos os caras do mundo, que tudo o que queremos são apenas coisas como salários iguais e poder transar com quem quiser sem ter gente enchendo o saco. Isso é fácil. Tenho certeza que um monte de cara vai dar joinha porque, se você parar pra pensar, isso não soa tão ameaçador assim. Mas seu propósito para o feminismo é apenas, unicamente a igualdade? Eu não estou me referindo à igualdade nos termos das leis - eu acho que todo mundo tem que ser tratado pelo Estado da mesma maneira ou, talvez, nem existir um Estado fosse a melhor solução. Mas... o que é igualdade?

Com quais homens você está querendo igualdade? Para quais mulheres?
Essa é a pergunta que você deve responder para si mesma. E quando responder, você vai perceber porque o discurso do "feminismo é sobre querer igualdade" não abrange tudo o que queremos e necessitamos.

Talvez funcione para mulheres brancas, cis, hetero e classe média que querem ser igualadas aos caras brancos, cis, hetero e classe média. Mas não funciona pro resto, porque não é como se todas as mulheres estivessem no mesmo patamar de opressão e - surprise! - não é como se todos os homens estivessem no mesmo patamar dos privilégios. Nós temos que lembrar que mulheres são divididas em muitas categorias: elas são ricas e pobres, brancas e pardas e negras e asiáticas e indígenas, heterossexuais, lésbicas, bissexuais, pansexuais ou elas são cis e trans, e elas podem ter deficiências ou não. Cada segmento tem suas necessidades específicas sobre as quais ninguém pensa quando diz que é tudo sobre "igualdade". Caras também são divididos em um monte de categorias do gênero, e elas não estão em posições iguais. E ainda há as pessoas não-binárias que também estão divididas em todas essas categorias. Caras heteros não estão em posição igual à caras gays, e mulheres pobres são completamente marginalizadas em relação às mulheres ricas. Porém duvido que uma feminista que seja branca e rica queira ser equiparada aos caras negros e pobres, porque ela quer ser igualdade ao cara branco e rico que possui os privilégios que ela não tem. E tenho sérias dúvidas sobre ela pensar criticamente sobre os privilégios dela de ser branca e rica. Nessa vibe de todo mundo querer igualdade, mas sem especificar de quem para com quem, o que acontece? Hm, eu tenho uma hipótese e ela é:

as pessoas igualam erroneamente todo mundo como se a galera toda estivesse no mesmo barco.
surprise: não está.

Então quando vem uma feminista que é branca e rica fazendo todo um ativismo que ignora completamente as questões de cor e de classe, bem, eu não tenho como me sentir inserida. Não estou no mesmo barco que ela, por mais que sejamos ambas mulheres cis. Quando o foco dela é conseguir salários iguais aos caras brancos ao passo que ignora que mulheres negras recebem menos do que mulheres brancas (e vão continuar a receber menos mesmo em uma situação que as mulheres brancas recebam a mesma coisa que caras brancos, porque o racismo não está nem mesmo posto em conta, que dirá solucionado), ela está fazendo um feminismo que não atende todo mundo. Que seja. Mas é importante que nós percebamos esses detalhes. É importante que nos questionemos o que nós queremos dizer quando falamos de igualdade e é importante lembrar qual categoria nós temos em mente quando desejamos nos igualar à "algo". Eu preciso que essas diferenças dentro da diferença sejam lembradas e discutidas, e é preciso que as pessoas percebam que as pessoas simplesmente não são e nunca serão iguais, e não é esse o problema.

Não se trata de conseguir a simpatia dos seus opressores e então conseguir se sentar ao lado dele no trabalho e tomar um cafezinho, mas se trata de destruir um sistema que faça daquelas pessoas seus opressores. E isso é ameaçador. Isso é ruim para os opressores, porque eles querem se sentir como se te dessem um favor ao te aumentarem o salário enquanto criam um vagão especial no metrô. Eles ainda são seus opressores e pode ter certeza: uma parte da minoria até que pode conseguir uma "igualdade", mas isso não resolve o problema porque continua existindo uma classe oprimida por outra.

Eu não quero mais "igualdade". Cansei dessa merda. Ela não expressa tudo o que eu desejo, sinceramente falando, que é basicamente destruir tudo isso de uma vez e acabar com essa história de existir opressores e oprimidos. 
"você é um cara cristão, hetero e branco e pensa que está sendo oprimido? diga-me o quão duro isso é para você"
3) Lembrete número um: e é por isso que pessoas brancas não sofrem racismo.

Acredito que se você leu até agora, entende meus pontos sobre como isso não se trata de "ideias errôneas que podemos erradicar", mas de uma estrutura sobre a qual a nossa sociedade está montada. É por isso que mulheres não podem ser machista, e é por isso que pessoas brancas não sofrem racismo. A ideia de que machismo é apenas uma ideia errada, bem como racismo ou homofobia, faz com que a gente esqueça de como tudo isso é um sistema perverso para oprimir e torne a coisa toda algo genérico que qualquer pessoa pode sofrer. Então as pessoas convenientemente esquecem que racismo é estrutural, corroborada pelo Estado, historicamente perpetuada por pessoas brancas, e acham que é qualquer coisa ruim que se fale a respeito da cor de sua pele. E, cara, sabe de uma? Não é.

Racismo é opressão. Machismo é opressão. Transfobia é opressão. Homofobia, bifobia, lesbofobia são opressões. Gordofobia é opressão. E estou esquecendo de um monte de categorias aqui, mas acrescente-as mentalmente.

Você é branca e uma pessoa disse que tu tá muito branca e precisa tomar um sol? É algo idiota a se falar, mas não é racismo. Racismo é outra coisa. É opressão sistemática de um sistema que se beneficia mantendo pessoas negras na marginalidade. Você é uma pessoa magra e acredita sofrer opressão "gordofóbica"? Bem, se você é uma mulher, com certeza você está sofrendo uma opressão misógina - que acredita que mulheres devem se enquadrar em padrões restritos de beleza - mas não é gordofobia. Gordofobia é outra coisa e fala especificamente de como pessoas gordas são sistematicamente excluídas de empregos e tidas como pessoas doentes, feias, nojentas e completamente ojerizadas por médicos e matérias de revista.

É verdade que caras podem receber estilhaços de misoginia quando saem dos seus papéis designados - por exemplo, ao se assumirem gays [muito da homofobia é completamente misógino] ou mesmo fazerem qualquer coisa minimamente associada ao universo feminino. É verdade que uma mulher cis que tenha características tidas como masculinas pode receber dúvidas sobre sua identidade e ter sua privacidade invadida, o que pode significar reflexos da transfobia. Estilhaços, reflexos, tudo isso, porém, são uma parcela muito ínfima: as opressões tem alvos e eles são muito bem definidos.

Não assuma que sofra uma opressão que não sofre. As pessoas sofrem por diferentes motivos, desde por ser mulher na Índia até por ser uma pessoa baixinha em, sei lá, Nova York. Isso não significa que pessoas baixinhas sofrem opressão. Opressão é outra coisa.

Lembrem-se disso: opressão é mais que uma opinião ruim sobre alguém, opressão é estrutural, parte de um sistema que privilegiará certas pessoas em detrimento de outras. Opressão significa tornar o corpo dessas pessoas errados, estranhos e/ou repulsivos [e disfarçar com "é gosto pessoal"], significa exclui-las do mercado de trabalho de forma deliberada [disfarçar com uma questão de "o empregador tem direito de escolher o que quiser"], significa impor à essas pessoas um conjunto de regras que não existem para a classe privilegiada [exigir que mulheres sejam "puras" ou que pessoas trans se enquadrem completamente em seus gêneros de acordo com os moldes da sociedade], significa limitar o acesso de direitos básicos à essas pessoas [direito de ir e vir no caso de pessoas cadeirantes e cegas, direito ao aborto no caso das mulheres cis, direito à uma identidade reconhecida no caso de pessoas trans], enfim: eu poderia fazer uma lista imensa sobre o que significa opressão, mas acho que deu pra entender o sentido da coisa. Por isso não faz sentido uma pessoa branca afirmar que sofre racismo. Não faz. Não tem como.

E se você continua achando que sim, só devo supor que tu tem uma má fé do caralho.

4) Lembrete número dois: afirmar que mulheres são machistas abre brecha para culpabilização da vítima.

Eu odeio essa ideia de fazer dois pólos distintos nesse mundo de pessoas boazinhas versus pessoas más. Não acredito que dois mil anos atrás pessoas brancas e européias se uniram numa sombria assembléia e decidiram maquiavelicamente que iriam oprimir qualquer um que não fosse como elas. O fato de eu ser avessa à essa visão do mundo, porém, não faz com que eu acredite que não haja vítimas, por exemplo. Há a parte prejudicada nessa equação e se eu esquecer disso, estarei sendo escrota. E nós não precisamos dizer à uma vítima que ela é culpada de ser vítima. Não temos nenhuma necessidade de dizer à uma classe inteira que a culpa de determinada opressão sobre elas é inteiramente delas.

Quando você diz que uma mulher é machista na mesma medida que homens são, ignorando completamente que só os homens se beneficiam do patriarcado, ao passo que mulheres estão procurando a aprovação masculina, você está dizendo que a culpa do patriarcado é dela. Quando você diz que homofóbico nada mais é do que gay enrustido que odeia gays que se assumiram, você está jogando a culpa de toda a homofobia em cima da própria classe homossexual e ignorando completamente a responsabilidade das pessoas heterossexuais que formulam leis anti-gays e expulsam seus filhos de casa por serem gays. Quando você tenta justificar seu racismo dizendo que não é um grande problema porque "problema mesmo é racismo de negro contra negro", você está removendo a responsabilidade das pessoas brancas [cuja classe historicamente escravizou e oprimiu pessoas negras] e jogando-a em cima das pessoas negras.

Não estou aqui querendo polarizar o mundo entre as vítimas coitadinhas que só estão reproduzindo o preconceito e caras malvados e perversos. Isso se trata de responsabilidade. É completamente injusto culpar as classes que foram oprimidas por séculos da nossa história dos seus próprios males em uma esfarrapada tentativa de se livrar da própria culpa. Dizer que os padrões de beleza só existem porque estilistas gays odeiam mulheres ou que mulheres só se arrumam loucamente para deixar outras mulheres, porque caras "nem se importam" com celulites e afins, é basicamente transferir responsabilidades que não deveriam ser transferidas. Apenas... parem.

Sim, mulheres reproduzem comportamentos machistas, sim, negros reproduzem comportamentos racistas, sim, sim e sim, porque nós não nos criamos em um vácuo. Nós refletimos os valores da sociedade, e nenhum de nós é imune à isso. Porém não lave suas próprias mãos para culpar classes desfavorecidas. Não se isente de sua responsabilidade, não finja que não ganha com esse sistema, não diga que o problema não é com você. Porque é.

Você também faz parte do problema. Não esqueça disso.

5) Lembrete número três: mulheres trans não podem ser misóginas.

Apenas: não.
Se você é uma pessoa feminista e concorda aqui comigo que mulheres não podem serem acusadas de "machismo" por alguns argumentos daqui e por mais outros [tenho certeza que você deve pensar nisso melhor que eu], então deve concordar que mulheres trans simplesmente não podem ser misóginas.
Porque são mulheres.

Se você discorda, então você não concorda que são mulheres.
E nós temos um problema aqui.

Vejo feministas identificadas como "feministas radicais" acusarem transfeminismo de lesbofobia e misoginia, e são as mesmas que dizem que mulheres não podem ser chamadas de machistas. Sempre as vejo argumentando contra páginas como Moça, você é machista e contrárias, por exemplo, à ressignificação do termo "vadia", entre outros. Nada contra essas opiniões. Absolutamente, eu concordo com diversos pontos. Mas as críticas ao transfeminismo por esses dois critérios esbarram nos fatos que são:

a) vocês consideram que mulheres não podem ser acusadas de serem machistas, assim como lésbicas não podem ser acusadas de lesbofobia, mas:
b) muitas pessoas integrantes do transfeminismo são mulheres e;
c) muitas dessas mulheres integrantes do transfeminismo são lésbicas, ou seja:
d) isso não faz dessa acusação uma grande contradição?

Mas tudo isso se resolve com a constatação de que:

a) vocês não reconhecem as mulheres integrantes do transfeminismo como mulheres [e, portanto, nem como lésbicas], e isso significa que:
b) vocês são transfóbicas, e:
c) se vocês querem criticar a corrente com base em lesbofobia/misoginia, vocês estão assumindo que são transfóbicas. Se vocês não querem admitir a transfobia, a crítica perde todo o seu sentido.
d) ou seja...?

Então, o resumo do post de hoje é basicamente:

a) Machismo não se trata apenas de ter uma opinião ruim sobre mulheres, mas de uma opressão estrutural que prejudica diretamente mulheres.
b) Não culpe as classes oprimidas por suas correntes, sendo que não foram elas que voluntariamente se algemaram.
c) Isso não é apenas sobre igualdade. [pensar mais criticamente sobre o que queremos dizer com "igualdade"]
d) Opressão é estrutural. É sistemático. Não seja uma pessoa patética assumindo que é oprimida por razões descabidas [aviso especial para o povo classe média da vida].

Obrigada pelo seu tempo gasto nessa leitura. Não sei se consegui manter minha coerência e meu ritmo do começo ao fim, mas acho que consegui me expressar mais ou menos como queria. Obviamente, eu não sou a dona absoluta da verdade e esse blog não tem nada de acadêmico, então nem pense que eu digo todas essas com respaldo teórico. Minhas opiniões são fundamentadas na minha vivência pessoal e nos conhecimentos que adquiro aqui e ali, e você não é obrigada a concordar com elas. Apenas não é.

Isso é só um blog, isso é só um texto meu.
Novamente, grata pelo seu tempo e paciência <3

Sexismo, racismo, capacitismo, homofobia, gordofobia, transfobia e "ódios no geral" [?] não são permitidos. Você será convidado a se retirar.
[fonte: achei no Pinterest]