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domingo, 20 de outubro de 2013

"Não fica natural" e outras desculpas esfarrapadas

Nicki Minaj - fiz esse post pensando em como ela era vista, então...

Quando eu era mais nova, assinava Capricho. E um dia chegou uma Capricho cuja matéria principal de beleza era sobre pintar os cabelos. Como pintar, que cores pintar, sugestões, dicas, etc. E então teve uma enorme tabela de duas páginas que cruzava cores de pele com cores de cabelo "aceitáveis" para aquelas determinadas cores de pele. Havia ainda uma foto de uma celebridade com aquela cor correspondente com o cabelo correspondente quando o resultado era "ok" e um desenhinho de uma bomba quando o resultado não era "ok".

Eu sei que o propósito era "mostrar cores que caiam como ~nasci assim~", mas ainda assim soava terrivelmente errado.

Primeiro porque a distinção de cores me soava confusa, porque eu - que sempre fui descrita como "morena clara" - me deparei com uma foto de Angelina Jolie representando pessoas ~morenas claras~ com a minha cor de cabelo (castanho escuro) e eu totalmente não consegui me identificar com ela. Aí vamos aos detalhes óbvios: pessoas negras não poderiam ser loiras, porque não seria natural (a menos que você tivesse muita atitude!), nem ruivas, e por aí segue. Enfim, restrições de cores capilares baseadas na cor de sua pele. Mas você nem acha isso um problema, certo? Eu tenho certeza que você está acostumada com isso. Todas nós estamos. Eu li Capricho durante toda a minha infância e adolescência, e aprendi de cor e salteado todas as cores de cabelo que me eram permitidas e todas que não, não eram permitidas porque... eu não era branca o suficiente. Eu absorvi esses conceitos. Passei anos da minha vida acreditando neles. Acreditando piamente que pessoas que não fossem brancas feito porcelana nunca poderiam ficar bem com cabelos platinados. Acreditando, inclusive, que cores fantasia caem melhores em pessoas brancas do que em qualquer outra cor de pele.

Eu passei minha vida toda escutando que meu cabelo era problemático. Porque ninguém sabia cortar ele direito e porque eu aprendi, na Capricho (inclusive), que se eu quisesse perfeitos cachos, era legal comprar um baby-liss para definir os cachos! Eu adquiri horror aos salões de beleza não apenas pela minha antipatia natural à lugares do gênero, mas porque simplesmente as pessoas não param de oferecer toda uma série de relaxamentos. Eu perdi a conta de quantas matérias eu li sobre como cuidar dos meus cabelos que começavam com chamadas como "como domesticar/domar/controlar seus cabelos!". Eu cresci ouvindo pessoas distinguirem "cabelo bom" de "cabelo ruim" e, acredite, uma criança sabe perfeitamente qual cabelo é bom e qual cabelo é ruim. Quando eu tinha quinze anos, foi o auge da moda de todas as meninas usarem chapinha e essa, especificamente, nunca aderi - não que passasse ilesa por ela. Eu ouvia coisas sobre como eu "deveria arrumar meu cabelo" que significava "escová-lo, alisá-lo, domesticá-lo". Não que eu não tentasse "abaixar seu volume": eu tentava. Mas meu cabelo simplesmente nunca se adequou à essa norma.

E então mesmo hoje eu vejo pessoas falando sobre que alisamento é uma questão de "praticidade". Porque cabelos lisos são "naturalmente" mais fáceis de se lidar. Porque cabelos crespos são inerentemente problemáticos, difíceis, ruins de se lidar. A textura é considerada complicada, ninguém sabe "como cortar", "não tem muito o que fazer".

Certa vez, esse ano, eu vi em um grupo de cabelos coloridos uma garota de pele morena (palavras dela, não minhas) que perguntava se poderia ficar bem com cabelos de cores diferentes. Não foi a primeira, nem a última a perguntar e a reação, em geral, foi positiva. Houve, porém, uma única pessoa que disse à ela para "pintar com cores frias", porque "cores quentes não ficam bem em peles morenas, como rosa ou laranja". Bem, uma busca na internet, essa linda, confirmou para mim o quão essa menina estava terrivelmente errada.

O negócio é que a menina acreditava que existia cores específicas que caíam bem ou não para uma determinada cor de pele. Talvez algumas pessoas não entendam a relação entre "limitar determinadas cores às peles morenas/negras" e "cabelos crespos serem considerados ruins". Bem, a relação é simples: as duas coisas são diretamente ligadas ao racismo. E... ao capitalismo. Como isso procede? Bem, é extraordinariamente simples. Não é paranóia minha quando falo de capitalismo: não se pode pegar uma opressão e fingir que ela não existe para servir à outra. Simplesmente... não dá. E quando discutimos questões relacionadas à beleza, capitalismo entra MUITO no jogo.

(mas sempre tem alguém de mimimi mandando ir pra Cuba ou defendendo capitalismo com unhas e dentes com argumentos retirados da Veja e, cara, de boa, apenas sai do meu blog)

é natural. ponto. bj. fonte da foto: dailymail
1. Porque não faz sentido limitar cores de acordo com a cor de pele.

Se você quer parecer ruiva natural estilo capa de revista, até faz sentido que as pessoas exijam uma brancura a la Lily Cole ou Marina Rui Barbosa - mas sabe de uma? Existem pessoas negras que são ruivas naturais. Assim como existem pessoas negras que são loiras naturais, sabia? Existem pessoas de muitas cores de pele com muitas combinações incríveis com cores de cabelos incríveis. Talvez algumas combinações sejam mais incomuns que outras - sim, eu sei que pessoas brancas ruivas são muito, muito mais comuns que pessoas negras ruivas (como comprova a minha dificuldade de achar fotos ilustrativas, especialmente em páginas brasileiras. Mas tive um pouco mais de sucesso e descobri, inclusive, que Malcom X tinha cabelos considerados ruivos, ainda que num tom mais escuro, o que me foi surpreendente). Mas o fato é que EXISTE.

E se existe...
... é natural.

Conclusão: se é natural, cabeleleiro, revista, portal de moda, Papa nenhum pode te aconselhar para "não pintar" de loiro porque "não é natural". Pessoas negras e ruivas existem. Pessoas negras e loiras existem. Existem naturalmente e existem independentemente do que você acha delas ou não. Existem lindamente por aí e não precisam provar a existência delas à você. Mas se você precisa de um testemunho em primeiras pessoas, bem, eu já conheci pessoas negras e loiras naturalmente. "Mas pode ser descolorante, Luna": não, não pode, porque elas eram pessoas de menos de dez anos que estudavam em uma escola que minha tia dava aula. Não tinham dinheiro sequer para ir na escola, às vezes, que dirá para um descolorante. Era loiro natural e não precisei ser cabeleleira para saber disso. Mas se isso não te convence, bem, uma busca no Google te convence ;)

O segundo ponto de porquê limitar cores de acordo com a cor de pele é ridículo: isso simplesmente não acontece com pessoas brancas.
Você não vê ninguém falando para pessoas brancas não pintarem seus cabelos de vermelho-Ariel-Princesa-da-Disney. Você não vê ninguém falando para pessoas brancas para não pintarem de rosa ou verde porque "vai ficar estranho". Sim, essas pessoas enfrentam preconceitos e são consideradas "diferentes", mas simplesmente não é na mesma proporção que pessoas negras. Ninguém fala à uma pessoa branca que é ridículo ela platinar seus cabelos até ficarem brancos, e ninguém questiona a "naturalidade" disso - ainda que, naturalmente, pessoas normalmente tem cabelo inteiramente brancos quando a) são albinas b) todos os fios se tornam brancos depois de certa idade. Mas Christina Aguilera é considerada linda e maravilhosa com seus cabelos perfeitamente platinados e Nicki Minaj é considerada estranha e bizarra.

A parte bizarra dessa história é quando se estende para cores completamente diferentes como magenta ou verde-cor-de-mato. Ninguém nasce com cabelos cor-de-rosa, sabe? Seria lindo, mas ninguém nasce. Ninguém tem cabelos naturalmente azuis da cor do mar. Não existem genes que confiram um belo púrpura ou turquesa naturalmente. Isso é inviável. Para obter cabelos nessas tonalidades, é um processo que envolve química. É um processo artificial usando corantes artificiais, criados em laboratórios. Então, cara, pessoas brancas e pessoas negras tem exatamente a mesma probabilidade de terem cabelos fantasia naturalmente que é:

zero.

Fotografia por Rodney J. G.
Mas mesmo assim eu tenho que me deparar com pessoas que acreditam piamente que cabelos rosa "só ficam bem" em pessoas brancas, pressupondo que elas fiquem "mais naturais". Então. Se seu argumento de naturalidade foi pro saco, então...
... sobra o argumento da estética.

E, bem, ele é extremamente vazio porque os nossos conceitos do "o que é bonito e o que é feio" são construídos pela sociedade. Não estou falando do papo de mulheres de cinturinha e homens exalando testoterona numa louca corrida de acasalamento aqui. Estou falando de pessoas brancas serem consideradas bonitas e pessoas negras não. Estou falando aqui de pessoas brancas terem seus diferentes visuais validados e ditos como "bonitos", "diferentes", "ousados" e pessoas negras com exatamente as mesmas modificações visuais serem consideradas "esquisitas", "bizarras" ou (sim, já vi) do "ghetto". Bem, eu acho óbvio que isso é um exemplo de racismo.

Não faz sentido você - sendo uma equipe de redação de uma revista como a Capricho, por exemplo, ou uma pessoa que trabalha em um salão de beleza - afirmar que "pessoas negras não ficam bem com tais cores" porque "não fica bonito". Nem todas as pessoas brancas ficam bem com cabelos loiros e nem todas as pessoas brancas ficam bem com cabelos curtos, mas duvido que você demonstre a mesma relutância, certo? Aposto que você consegue pensar em cinco exemplos de celebridades que usaram algo parecido (e deu certo) e pode tentar dar certo. Mas então você é tão relutante sobre "pessoas negras", ignorando completamente que elas possuem diferentes tonalidades de pele, diferentes traços, diferentes texturas de cabelo e, principalmente, diferentes personalidades. Quando você diz que "pessoas negras não ficam bem com cores quentes", como afirmou a menina que comentei no início do post, você está ignorando a imensa diversidade que existe dentro das pessoas negras. Na real, você está imaginando UMA pessoa negra que, por acaso, não fica bem com um cabelo ~rosa-choque~ e achando que todas as outras são iguais à ela e, portanto, sua ideia se tornaria válida.

Mas sabe de uma?
As pessoas não são iguais.

Você não vê pessoas brancas como iguais uma a outra. Você consegue enxergar diferenças entre Mari Moon e Audrey Kitching. Você consegue imaginar que determinadas coisas fiquem bem em uma e não em outra. Você não diria para elas para "não pintarem seus cabelos de preto porque pessoas brancas não ficam bem de cabelo preto", diria?
Então por que você faz isso com pessoas negras?

Minha irmã que achou a foto lá no Cabelos Coloridos da Depressão, mas não merecem link não porque colocam uma tag horrorosa em todas as fotos como se as fotos fossem propriedades da página e não retiradas de tumblrs gringos rs
2. Porque meu cabelo não é difícil e porque é conveniente vocês acreditarem que ele é.

É óbvio que a indústria da beleza lucra pra caramba. Academias para moldar seu corpo, suplementos, remédios emagrecedores, químicas alisantes, cremes de todos os gêneros, bases, batons, sombras, primers, implantes de silicone, rinosplatias, botox, preenchimento com colágeno, cremes anti-rugas, etc, etc, etc. Você compra revistas que te ensinam dietas milagrosas, você paga profissionais para te depilarem e escovarem seus cabelos, você paga por spa para relaxar e desintoxicar seu organismo, você paga por academia para fortalecer seus glúteos, etc. E tudo, absolutamente tudo, vai girar em torno de como é importante você fazer isso. De como malhar três vezes por semana e fazer as unhas é a mesma coisa de "se cuidar". A mídia - e aqui eu não uso ela como uma entidade malvada, mas como uma palavra para designar revistas, programas de TV e propagandas - vai se esforçar bastante para te dizer que você consumir tudo isso significa que você se ama, se cuida, se protege.

Os argumentos são todos:
"é pela higiene"
"é pela estética"
"é pelo cuidado, porque se você se ama, então você faz isso"

Chega à um ponto que acreditamos que fazer as unhas é a mesma coisa que "cuidar de si". E quando uma celebridade apresenta pelos das axilas não devidamente raspados ou o esmalte descascado, pode ter certeza, vai ter aquele zoom nos dez tablóides tratando o "desleixo" e "descuido" da celebridade como um escândalo, em letras garrafais e piadas maldosas, e pessoas se sentirão escandalizadas, porque é óbvio que uma celebridade tem a obrigação de se manter integralmente impecável e é óbvio que temos o direito de rechaçá-la quando ela foge à norma. Assim como nós também devemos nos esforçar para nos adequar à norma, enquanto possível, e criamos relações problemáticas com determinadas coisas quando não nos sentimos adequadas: como, por exemplo, quando temos problemas com a comida, sentindo culpa em "comer", porque a sensação de "se sentir gorda" é persistente. Você chega à um ponto que começa a odiar seu corpo por ele fugir aos padrões restritos da sociedade - magro (mas perfeitamente saradinho) branco, sem estrias, sem celulite, sem marcas, sem pêlos, etc, etc, etc. E... pronto.

Você percebe o ponto que chegamos aqui?
Nós temos uma sociedade que se odeia.
Nós temos pessoas que odeiam seus próprios corpos. E nós temos pessoas que desejarão se enquadrar seus corpos nas normas, porque se sentem infelizes fora delas. Porque elas vêem as celebridades sendo rechaçadas quando fogem às normas, e elas mesmas são rechaçadas - ignoradas, humilhadas ou mesmo perdem empregos - pelos seus corpos fora da norma. Todo mundo adora falar de como obesidade leva à depressão, mas o que você esperava? Pessoas gordas são frequentemente humilhadas, ojerizadas, ridicularizadas em todos os segmentos da sociedade, não conseguem empregos, são vistas como "preguiçosas" ou "nojentas" e vamos lembrar que os espaços públicos simplesmente não comportam pessoas gordas? Se você encontrar uma pessoa que passou por tudo isso sem sofrer um tiquinho, eu te dou um chocolate. Voltando à questão: nós temos, então:

a) pessoas que odeiam seus corpos;
b) uma imensa e maravilhosa indústria que vai vender à essas pessoas justamente o que elas "precisam" para... se adequarem.

Curiosamente... a mesma indústria que estimula o pensamento de que somos erradas. De que nossos corpos estão errados. E isso vira um ciclo vicioso. Isso é tão lucrativo que você não tem nem ideia. O faturamento líquido de impostos em cima de produtos de beleza, em 2009, chegou a 24,9 bilhões de reais. O Brasil já é o terceiro maior consumidor de produtos do gênero, e a gente perde só para os EUA e Japão. Isso é... apenas impostos em cima dos produtos. Eu não falei de lucros dos produtos. Nem falei das academias, nem dos spas, nem dos salões de beleza, muito menos das clínicas onde se realizam procedimentos cirúrgicos. Você consegue imaginar a dimensão disso?

O que cabelos crespos tem a ver com isso? É simples: não vivemos em uma sociedade apenas capitalista. Nós vivemos em uma sociedade racista, machista, transfóbica, etc, etc, etc. Então os padrões validados e veiculados como "aceitáveis" são... surprise! racistas, machistas, transfóbicos, etc, etc, etc! Nada mais coerente à uma sociedade capitalista e racista do que vender produtos que clareiam a pele em países onde uma cor de pele mais clara é praticamente um status social mais elevado. Nada mais lógico que dizer às mulheres, uma classe historicamente oprimida, que elas precisam se depilar, se maquiar, emagrecerem e tudo o mais para arrumar homens e que isso deve ser sua prioridade na vida.

fonte: jirano
Nada mais conveniente se aproveitar do racismo para afirmarem que nossos cabelos são "difíceis" de se lidar, monopolizar todos os meios de comunicação e então oferecer milhares de alternativas - caras e ligeiramente complicadas - para "domesticar" nossos cabelos. Nunca se esquecer dessas palavras, associando nossos cabelos à "selvageria" e "problema" - palavras associadas às pessoas negras desde que europeus cara-pálidas se deram ao trabalho de escravizar diversos povos africanos. Nada mais conveniente e confortável lucrarem em cima da generalizada desinformação que existe sobre os cabelos crespos. Nada melhor do que pegar determinados cabelos associados à cultura negra (em uma grosseira generalização aqui) e então... embranquecê-los. Porque não basta você encher seus programas de TV e revistas com modelos de cabelos esvoaçantes, você ainda tem que colocar pessoas brancas usando dreadlocks com suas carinhas sorridentes. Você tem que explicar que dreadlock se faz com cera e esquecer convenientemente que dreadlocks são NATURAIS do cabelo crespo.

Não basta você dificultar o acesso das pessoas com seus cabelos crespos às informações realmente válidas de como cuidar dos seus cabelos, você ainda tem que pegar estilos específicos relacionados aos cabelos crespos e vendê-los como se fossem da cultura branca e ocidental. Quer dizer, isso é lucro para quem? Não para mim.

O fato é que quando comecei a pesquisar na internet sobre como cuidar dos meus cabelos, eu percebi que as informações eram muito diferentes do que eu encontrava na mídia tradicional. A verdade é que cabelos crespos não são "mais difíceis", apenas demandam cuidados diferentes. Nós aprendemos que precisamos domesticá-los à base de muito creme, usar baby-liss para definir os cachos e que eles precisavam serem "perfeitamente" cacheados e, na real? Não precisa. Você não precisa nem lavar os cabelos todos os dias, assim como você não precisa penteá-los todos os dias. Eu vejo milhares de meninas reclamando que sofrem com dor porque penteiam por horas e horas, desembaraçando-os, mas você sabia que muitos cabelos cacheados costumam formar cachos mais estruturados quando você não penteia? Você sabia que as toalhas felpudas que usamos normalmente acabam agredindo nosso cabelo, deformando os cachos, e é mais legal você usar uma camiseta simples de algodão que absorve melhor a água e é mais gentil? Não, essas coisas não aparecem o tempo todo na mídia tradicional, não é? Aparecem em portais específicos sobre o assunto, mas não são tópicos correntes em uma revista Cláudia da vida, não é?

Mas interessa à essa indústria tão lucrativa vender esse ideal de "cabelo difícil que precisa ser domesticado". Interessa vender atributos como "volume" como indesejáveis.
Senão...
... o que eles vão fazer com os mais de cem tipos de escova? O que eles vão fazer com todos os produtos que prometem abaixar o volume? O que eles vão fazer com tudo isso que você não vai precisar? Oh... não se pode ter prejuízo nesse mundo. Simplesmente não rola.

A verdade é essa: seu corpo é natural. Seu cabelo é natural. Tudo em você é perfeitamente natural. Nada está onde fora de onde deveria estar: seu peso, seus cabelos, seus olhos, sua cor de pele. Ninguém pode lhe dizer o contrário. Uma sociedade que lhe diz isso só está fazendo isso porque ela lucra em cima do seu desajuste social. Ela lucra em cima da falta de auto-estima de milhares de adolescentes e do medo do envelhecimento de milhares de mulheres. É do interesse da nossa sociedade em que vivemos manter um padrão inatingível de um corpo ideal, nos fazer financiar esse padrão e julgarmos uma a outra por não alcançar esse padrão. Veja bem, quando falo "sociedade", não falo de uma entidade maligna estilo Olho de Sauron. Eu falo de pessoas.

As pessoas que são publicitárias, estilistas, donas de companhias milionárias de remédios de emagrecimento, farmacêuticas que inventam tais drogas, donas de academias e spas de desintoxicação, todas essas: elas também foram afetadas com esse modelo que praticamente se autoreproduz. Visualizá-las como coisinhas malignas que se propõem a destruir o mundo não adianta. Não estamos em uma situação bem x mal. Mas adianta refletir sobre como isso é feito e porquê isso é feito. Vale refletir para quem interessa manter esse padrão e para quem interessa destrui-lo. Vale refletir quem está se beneficiando com isso e quem não está.

E... vale começar a destrui-lo você mesma. (✿◠‿◠)


Ilustração linda para encerrar bem o post. Eu peguei da página Pretty Black Pastel, mas perdi o link, não acho mais a imagem e não sei quem ilustrou :(

domingo, 6 de outubro de 2013

Para se ler nos dias ruins (☆^ー^☆)

"Você pode fazer isso" (fuckyeahsubversivekawaii)
Esse texto é para você: a pessoa que eu sei que chora eventualmente ou que não chora nunca ou chora sempre. A pessoa que se pergunta se está fazendo tudo certo, a pessoa que procura por uma maneira de aprender a se amar, a pessoa que passou por maus bocados nessa vida e só quer paz.

A verdade é que: você pode aprender muita coisa sobre movimentos sociais e mecanismos de opressão. Você pode ser capaz de saber conscientemente que está tudo bem ser gorda, que está tudo bem ser gay, que está tudo bem ter depressão, que está tudo bem ser qualquer coisa. Você pode passar anos sabendo que seu reflexo distorcido no espelho nada mais do que produto de uma sociedade doentia e obcecada por padrões de beleza, você pode saber perfeitamente que seu relacionamento amoroso atual tem doses de sentimentos possessivos e manipulações psicológicas em um nível alarmante e saber que isso não te faz bem, você pode saber que você tomou a melhor decisão do mundo para você e sabe que o julgamento em cima das suas decisões estão baseadas em ódio e controle. Você pode saber tudo isso.

Nada disso te impede de se machucar.
Nada disso te blinda das nossas pequenas crueldades diárias.

Para você,
minha querida pessoa que sofre agressões e reproduz agressões - com outras mesmo não querendo, com você mesmo odiando mais ainda a si.
Esse texto é inteiramente escrito para você e, talvez, eu consiga atingir uma ou duas pessoas. Isso me fará feliz, por ora.

Eu queria te dizer que tudo ficará melhor. Que as coisas se ajeitarão e um dia seremos uma linda comunidade humana que viverá de hortas comunitárias. Sem trabalho escravo. Sem partidos religiosos esquisitos que vociferam contra liberdades individuais o tempo todo. Sem duvidosas alianças políticas. Um mundo em que você sinta que se integrou perfeitamente, um mundo que seja legal fazer parte, um mundo maravilhoso, como uma utopia. Eu queria te dizer que se a gente lutar muito agora, vamos conseguir atingir esse paraíso daqui a alguns anos. Que talvez a gente consiga ver tudo isso antes de morrermos. Mas seria mentiroso da minha parte: as nossas chances não são as melhores, o nosso movimento ainda tem rachaduras difíceis de se consertar e o outro lado da batalha tem recursos e pessoas com muito mais poder do que nós. Foram historicamente preparadas para isso, ao passo que estamos em desvantagem porque isso aqui não é uma guerra: é um massacre, físico e psicológico.

Mas eu queria te dizer bem baixinho:
você não é a única pessoa que se sente sem esperanças.
você não é a única pessoa que sente ódio de como mundo foi feito.
você não é a única pessoa que queria que as coisas fossem diferentes.
você não é.
"Lembretes: você é uma ótima pessoa. / eu amo você muito, muito mesmo / você merece amor / você merece atenção / você merece respeito / e você merece muito, muito mais / está okay bagunçar / está okay estar errada / está okay estar chateada / está okay chorar / você é amada"(fuckyeahsubversivekawaii)
Eu sei que tudo parece muito ruim, e eu sei que dá vontade de abandonar tudo e viver no meio do mato. Eu sei que é horrível viver em um mundo em que você viva em permanente estado de alerta, e eu sei que às vezes não há saída a não ser desabar. Muitas pessoas morreram em todos esses anos, e morreram por serem quem são, por terem gritado sobre quem são, por terem se recusado a viver como todo mundo queria que vivessem. Seus nomes foram apagados da nossa história, suas histórias esquecidas. Elas não se mataram, e você sabe disso. Nós matamos elas. Nós, enquanto sociedade, assassinamos pessoas todos os dias, seja desovando travestis em valas, seja destruindo a auto-estima de mulheres estupradas, seja acabar com qualquer perspectiva de futuro de uma criança negra e pobre. E então chamam de suicídio a morte de tantas pessoas que tomaram muitos remédios, por exemplo, como se a morte fosse uma escolha no caso delas, mas eu e você sabemos que não foi. Elas simplesmente terminaram o serviço que nós começamos. E eu sei que a boca fica seca e a garganta dá um nó de ódio a cada notícia de estupro, a cada comentário defendendo estupradores, a cada página de ódio, a cada discussão estúpida, a cada pai e mãe que não aceita, a cada escola que expulsa, a cada namoro e marido e homem de qualquer gênero que violenta, a cada emprego negado, a cada bala perdida de nobres policiais atirada coincidentemente em pessoas negras, a cada amizade perdida, a cada pessoa que desaponta. Parece ruim e parece que não se pode lidar com isso.

Vou ser honesta: às vezes não dá para lidar.

Às vezes a cota simplesmente extrapola, e então eu só posso lhe dizer: não vai passar, mas é possível não morrer de desgosto. É possível ainda ficar de pé e querer alguma coisa melhor. É possível você ainda continuar com raiva e essa raiva lhe fazer bem, é possível você ainda continuar insistindo em seus ideais, é possível. E eu sei que essa humanidade, linda e maravilhosa do jeito que é, não tira uma folga de foder as minorias diariamente, mas é possível conseguir alguma melhora enquanto vivermos. Pode acabar não sendo o lindo mundo que imaginamos, mas é possível que alguma coisa melhore. Não, você não errou ao desejar um outro mundo, uma outra maneira de fazer as coisas. Não, você não falhou ao vacilar e acabar se odiando mais uma vez. Não, você não está sendo hipócrita quando fala tanto da importância do amor-próprio e acaba se encontrando em relacionamentos possessivos e controladores que não sabe como entrou neles. Não, você não é incapaz e sim, a gente te ama.

A gente te ama.
Você não sabe disso, mas a gente te ama.

Meu bem:
eu queria te motivar, mas acho que não consegui. A real é que a sensação de dar murro em ponta de faca é forte, forte demais para eu ignorar. Mas o que vai acontecer se eu simplesmente achar que nada vai mudar de qualquer jeito e dar as costas? O que vai acontecer se eu me permitir ignorar os erros dos nossos ancestrais? O que vai acontecer se eu ficar em silêncio? Talvez o mundo não mude, mas e eu? E você? E se você cair, eu caio junto? Se eu cair, tu cai também?

E se nenhum de nós cair?
E se a gente insistir em ficar de pé e ainda chamar todo mundo pra ficar de pé?

E se você pergunta: e se eu tropeçar e achar que não dá mais?
Tudo bem.
Ainda somos pessoas e somos pessoas vulneráveis. E não há vergonha em admitir isso. Porque estamos em desvantagem, meu bem, e todo mundo sabe disso.

Quando você tropeçar, a gente te segura. Quando você quiser desistir tudo, a gente te entende. Quando você quiser estar na linha de frente, a gente te dá cobertura. Quando você quiser desabar e chorar num cantinho, a gente te abraça.
Mas não se sinta como se fosse a única pessoa do mundo a lidar com essas coisas.
Não se sinta só.
Você não está, acredite em mim :)

"Pessoas que fazem você se sentir mal sobre você mesma não são pessoas para você" (fuckyeahsubversivekawaii)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Algumas considerações sobre porquê eu não ser do rolê misândrico

Aviso: isso aqui foi feito como reflexões minhas no meio feminista. Não tolero gente de fora querendo desqualificar o movimento na base do "mimimi misandria" e justificando coisas esdrúxulas com base nisso. Tô nem aí pra suas lágrimas de machinho opressor. Minhas considerações sobre misandria são apenas algumas observações e incômodos pessoais meus, não sobre os seus sentimentos.

Primeiro que eu quero ressaltar: eu acho compreensível que uma mulher deteste homens. Vamos apenas botar a mão na consciência e lembrar que praticamente toda mulher tem uma história de terror envolvendo abusos e assédios e eles são cometidos por homens. Acho compreensível que uma mulher tenha horror à ideia de ficar sozinha com homens, odeie homens no geral, que sinta medo de homens. Não se retira o direito dela detestar homens por diversos motivos. Assim como não se retira o direito de pessoas transgêneras não quiserem se relacionar com pessoas cis por temer abusos e não se retira o direito de pessoas negras se reunirem em espaços seguros sem pessoas brancas ficarem insistindo que "não vêem cor". Toda e qualquer minoria tem direito de se resguardar e temer seu opressor e isso não deve ser questionado.


Definido esse ponto, então vamos para o que interessa: misandria, ao meu ver, tem o mesmo valor que heterofobia ou racismo reverso. Ou seja, não se sustenta como uma ideologia. É uma reação legítima e justificável, mas não é uma ~~ideologia~~ que deve ser tomada como uma pauta. O movimento LGBT não pode trabalhar com a heterofobia como um ideal. Assim como o movimento negro não pode trabalhar com racismo reverso. Me soa lógico que o feminismo não possa trabalhar com misandria como se ela fosse uma parte institucional do movimento. Mas por quê eu digo isso?

A misandria é basicamente ódio e aversão aos homens. Tornar isso como algo parte integrante do movimento, como uma de suas principais características ou, indo mais extremamente, tornar como um pilar ("eu sou feminista porque odeio homens", por exemplo) significa polarizar o mundo em uma divisão binária que é basicamente o homem oprimindo a mulher. Eu duvido muito que mulheres que declaram que são seriamente misândricas estejam pensando em pessoas não-binárias quando repetem esse discurso, realmente duvido. Acontece que eu vejo algumas falhas nessa lógica, por questões muito simples. A primeira delas é a óbvia falta de intersecionalidade.

Aqui vou dizer uma coisa que vai incomodar, incomodar pra cacete, mas acho importante dizer: querida, a opressão de homens em cima de mulheres não é a mais importante de todas. Não é mais importante falar de homens oprimindo mulheres do que pessoas brancas oprimindo negras ou então pessoas cis oprimindo pessoas trans. Então a misandria como algo a ser inserido no movimento como característica vai totalmente contra isso, porque faz pressupor que a opressão de uma classe é mais importante do que as outras. E não é. Cara, não é. Por quê seria? Isso aqui não é uma Olímpiada de Opressões. Não é como se houvesse uma classe mais oprimida. Mulheres e pessoas trans e negras e animais e com algum tipo de deficiência, todo mundo é fodido pelo sistema em algum grau. Então não vou entender se você chegar pra mim e falar "olha, sou feminista porque eu odeio todos os homens", porque vou te perguntar: todos?

Todos?

Todos os homens negros, trans, gays, bi, com deficiência, o caralho a quatro? Olha, tenho que ser sincera: como falei lá no começo, eu não me importo que você odeie toda e qualquer pessoa que se identifique como homem se isso é uma postura individual sua, só sua. Se isso é um trauma seu, sabe, não sou eu que vou apontar o dedo pra tua cara e te julgar porque cada um sabe da sua cruz. Mas eu acho extremamente inválido colocar isso como se ser misândrica fosse algo que uma feminista tenha que ser, porque considera que lutar por mulheres seja mais válido, mais legal, mais importante do que lutar pelas pessoas negras e foda-se o racismo que caras negros sofrem. Acho extremamente inválido considerar que todos os homens da face da terra sejam automaticamente 100% privilegiados em todas as áreas do universo, sem levar em conta que eles podem ter características específicas que os levem a sofrer outras opressões, como ser gay ou ser negro. É disso que falo quando aponto a falta de intersecionalidade: eu não vejo esse ponto debatido entre feministas que se autodenominam misândricas em níveis que não me soam como uma "brincadeira", mas como algo mais sério e profundo.

Mas, talvez, isso não seja debatido porque é "óbvio" que o homem odiado é o Sr. Combo de Privilégios: o branco, hetero, cisgênero, heterossexual, classe média, com todas as funções corporais perfeitamente habilitadas para viver em sociedade sem nenhum problema. Não vou nem me dar ao trabalho de defender essa classe: sério, não perco meu tempo. São poucas as vezes que você encontra um que resolva descer do seu ~~~pedestal~~~ e se dignar a ser decente. Mas vou aproveitar o gancho só para falar dos meus outros problemas de se considerar a misandria e aí eu tenho praticamente cem por cento de certeza que um monte de gente não vai gostar do meu ponto porque eu corro o risco de soar ~~~defensora dos homens coitadinhos~~~ o que não é a minha intenção, mas vamos lá.

O primeiro ponto: eu acredito que homens podem ser feministas. Eu entendo que várias feministas discordem de mim e elas tem as suas razões para isso, e tenho certeza que são razões legítimas e tudo o mais. Não me atrevo a desqualificar. Eu apenas tenho razões diferentes que me levam a acreditar que homens podem ser feministas, simplesmente porque eu acredito que qualquer pessoa pode ser feminista. Eu acredito que feminismo é um movimento pela libertação da mulher enquanto gênero, pela igualdade dos gêneros, pelo fim da misoginia e de tudo que subjuga o gênero feminino. Eu acredito que o feminismo é um movimento para empoderar as mulheres, sejam elas cis, trans, o caralho a quatro. Eu acredito nessas coisas, eu tenho que acreditar nessas coisas, porque senão - pra mim - não faz sentido ser feminista. Então, ao meu ver, qualquer pessoa - tendo ela um gênero binário ou não - pode se determinar como feminista por acreditar nessas coisas. Por acreditar em libertação, igualdade de direitos, respeito, empoderamento. 

Eu vejo algumas feministas afirmando que homens não podem ser feministas porque um dia eles sempre jogarão seus privilégios na nossa cara. Porque um dia eles vão falar merda e a máscara vai cair. Eu tenho um ou dois pontos sobre isso:

O primeiro é que eu não acredito que pessoas são primariamente irreversíveis. Eu não acho que um homem, por ser homem, seja incapaz de aprender sobre privilégios, assim como não acredito que seja impossível para uma pessoa cis aprender sobre trans ou uma pessoa hetero aprender sobre pessoas não-heterossexuais. Sim, elas podem falar merda um dia qualquer. Sim, elas podem jogar seus privilégios na tua cara um dia qualquer. SIM, elas tem privilégios. Mas e aí? Eu posso e já falei muita merda na minha vida. Sou uma pessoa cheia de privilégios, já fui elitista, já disse merdas transfóbicas estilo "ela nasceu menino e virou menina", já achei que garotas eram tudo de ruim e que só homem prestava pra amizade, já deixei passar muita merda dita por outras pessoas achando que não era sério o suficiente, etc. E aí? Eu repensei todas essas atitudes. Ainda tenho muitas para repensar. Um homem não pode fazer o mesmo? É impossível à um homem rever as merdas que fala? 

Se é possível para eu, como cisgênera, rever meus privilégios, porque não é possível para um homem fazer o mesmo? Ou cairemos novamente na Olímpiada das Opressões no qual uma é considerada primordial em relação às outras?

Uma vez vi uma pessoa falando que "homens nunca conseguirão se despir dos seus privilégios". Eu diria que, tecnicamente, é impossível você fazer isso. Enquanto você faz parte de uma classe privilegiada, bem, você vai continuar fazendo parte dela até que, sei lá, você deixe de fazer parte dela por motivos especiais e mágicos ou... essas classes sumirem. E enquanto você continuar fazendo parte dela, você vai receber os privilégios dela independente da sua vontade ou não. A pergunta é: você vai se aproveitar disso ou não?

Uma pessoa branca é branca. Ela não pode pintar a cara de preto e ~se abdicar~ de ser branca, por motivos de: é extremamente desrespeitoso, ofensivo e não iria resolver nada. Ela não pode virar uma pessoa negra. Ela pode pintar a cara dela o quanto for, ela nunca será uma pessoa negra. Ela não pode ~~~abrir mão~~~ de ser branca. Não adianta o que você faça, a menos que apareça os Padrinhos Mágicos, essa pessoa continuará tendo uma narrativa de pessoa branca que é completamente diferente da de uma pessoa negra. Mas isso não significa que está tudo acabado e que ela não pode fazer nada a respeito. Significa que ela, sendo pessoa branca, deve reconhecer que possui tais privilégios. Mesmo que ela não possa evitar ser melhor tratada em lojas, por exemplo, ainda assim pode e deve lutar apoiando pessoas negras. Deve ouvir suas vozes e compreender que deve se calar para ouvir melhor quem sempre teve a voz silenciada. 

Uma pessoa com privilégios pode fazer muitas coisas para apoiar um movimento não-privilegiado e não precisa necessariamente se aproveitar deles. Um homem não vai conseguir se despir dos seus privilégios e continuar sendo um "homem sem privilégios", mas é capaz de ouvir e compreender, de desenvolver empatia e compreensão, enfim, de ser uma pessoa que pode apoiar outras. Eu preciso acreditar nisso: que qualquer pessoa pode apoiar outras sem estar necessariamente querendo lucrar em cima disso. Eu preciso.

No que isso se relaciona ao conceito de misandria? Lembrando que me refiro à misandria como se fosse uma pauta específica do movimento. Bem, se misandria se torna uma parte característica do movimento, suponho que não se possa incluir homens no feminismo como ~apoiadores~ (que é o papel máximo que se possa cumprir). Isso significa exclui-los do movimento até mesmo do papel de pessoas que apóiam e compreendem. E isso significa uma pergunta: QUAIS homens excluiremos? Que tipo de critério utilizaremos para salvar a intersecionalidade tão necessária no movimento? Ou apenas os Senhores Combos de Privilégio serão automaticamente excluídos? Hmm, eu não sei como responder à essa pergunta. Sério. Eu tenho certeza que desejar excluir essas determinadas pessoas do movimento é legítimo, mas eu - eu, particularmente eu - não vejo como algo nocivo que essas pessoas aprendam sobre o movimento. Isso não significa que eu quero abraçá-las e colocar uma coroa em suas cabeças por serem tão dignos, eu só acho que é legal que elas aprendam sobre isso. Acho legal que pessoas se identifiquem com o feminismo, sejam elas diretamente afetadas ou não. 

Eu meio que não gostei de escrever esse texto, porque eu me sinto como se estivesse me indispondo com um monte de gente que se alinha politicamente à muito do que penso e eu realmente detesto apontar alguma coisa no feminismo que uma pessoa escrota possa pegar como argumento para desqualificar o movimento, então eu tentei ser menos assertiva e mais reflexiva. Vejam bem, eu quero ressaltar algumas coisas:

a) Eu não estou falando de aprovação masculina. Não estou sugerindo, nem por um segundo, que o movimento PRECISA de homens para que eles nos aprovem. Não disse isso, não quero passar essa interpretação, não concordo com isso;

b) Eu totalmente NÃO ESTOU falando de PROTAGONISMO. Estou presumindo que seja óbvio ululante que o protagonismo do feminismo pertença somente à mulher. Estou falando do papel de apoio. Eu sei que repeti muitas vezes durante o texto, mas quero reforçar isso até ficar chato, só para garantir que não seja mal-interpretada.

c) Eu sou 100% a favor de espaços seguros. O quer dizer que, sim, apóio grupos inteiramente voltados para mulheres cis e trans, mulheres trans, mulheres negras, mulheres com deficiências, mulheres mães, etc. Eu apóio que esses grupos específicos sejam segregados, voltados exclusivamente para as necessidades daquelas pessoas que precisam se sentirem acolhidas entre seus iguais e compartilhar suas experiências sem ser ouvida por uma pessoa pertencente à classe opressora (mesmo que a pessoa, em questão, não tenha feito nada contra ela). Eu acho importante esses espaços seguros para dividir vivências e se empoderar. Não questiono isso e não é disso que estou falando. Estou falando do feminismo como um todo ou, pelo menos, de algumas de suas correntes.

d) Esse texto é apenas minha opinião, um desabafo pessoal, formada a partir de observar diversas outras feministas e suas relações com "misandria". Não significa que seja definitiva, porque ainda estou pensando no assunto. Eu não sou contra a misandria em si, assim como não sou contra heterofobia ou racismo reverso. Porque eu sei que é uma piada interna, é uma piada que nos permite tirar onda de quem nos oprime. Eu fiz esse texto porque eu observei que misandria estava se tornando algo mais forte do que apenas uma piada, como se fosse algo que motiva a pessoa ao feminismo, e embora eu não tenha nada a ver com os motivos pessoais de cada pessoa ser feminista, eu me senti deslocada porque misandria não me abrange politicamente. Eu não me sinto acolhida pelo feminismo com essa característica impregnada no movimento. Tenho que ser sincera quanto à isso: o feminismo que se basear em misandria não me representa. 

E isso é tudo, acredito eu.

só para lembrar o aviso do começo do post.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Por favor, enfie o seu "você está levando para o lado pessoal" naquele lugar (=^ _ ^=)

Eu estava lendo esse post de Leda (e eu realmente gostaria que você lesse também, porque acho que ler isso vai te ajudar a compreender melhor esse post) e isso me fez pensar. Eu já lidei com todas essas críticas. Embora eu seja uma garota sortuda e eu tenha recebido muito amor de diversas pessoas, muitas delas que me são completamente estranhas, eventualmente há quem diz que eu deveria ser menos inflamada, me doer menos, levar menos para o lado pessoal. É apenas internet, me disseram, não se deixe afetar por isso. Engraçado. Eu não sabia que o mundo deixava de ser mundo na internet. Eu não sabia que eu tenho condições de não levar discussões sobre feminismo para o lado pessoal. Eu não sabia que eu tenho o privilégio de falar sobre misoginia e racismo de forma plenamente racional, como se eu não fosse afetada por essas coisas.

Acho especialmente cruel quando pessoas me dizem para eu não levar para o lado pessoal. A impressão que eu tenho é que acham que eu passo meus dias discutindo feminismo no Twitter e escrevendo posts e mais posts e mais posts sobre misoginia ou transfobia ou privilégio branco porque "eu quero". Porque "é divertido" e eis aqui a novidade: não é. Não é divertido para mim eu abrir o bloco de notas e tentar traduzir a minha raiva e decepção com a humanidade em palavras coerentes. Eu não estou aqui escrevendo compulsivamente porque "é legal", mas porque é necessário e porque não sei viver de outra maneira. Não tenho mais condições de simplesmente dar as costas e ir viver minha vida, e não tenho esse privilégio de fingir que o patriarcado não existe, por exemplo. Eu vivo esse patriarcado 24h, 7 dias por semana. Eu NÃO TENHO essa escolha linda e maravilhosa de ser mulher duas vezes por semana, das 8h às 12h. Sou mulher integralmente, sinto os efeitos da misoginia integralmente. Não faz sentido você pedir para uma pessoa que vive uma situação marginalizada para não levar "para o lado pessoal". É a vida dela. Não tem como ela separar essas questões e deixá-las reservadas em um campo neutro e impessoal. Quando você pede que ela faça isso, você está sendo uma pessoa estúpida, cruel e extremamente perversa.

Eu participo de discussões do gênero desde que eu uso internet em casa. Isso quer dizer: sete fucking anos de debates pela internet. Eu já lidei com pessoas que me chamaram de satanista por ser atéia, vagabunda por defender o direito ao aborto, lésbica como se isso fosse uma ofensa, perdida, nojenta, pecadora, arrogante e toda uma série de xingamentos piores. Já lidei com homens heteros que tentaram me explicar o que era feminismo e como exatamente mulheres deveriam evitarem serem estupradas, homens gays que despejavam toda sua misoginia em mim, mulheres hetero que me odiavam porque eu dizia que era horrível chamar outra mulher de vadia, mulheres lésbicas que afirmavam categoricamente que não se pode confiar em bissexuais. Já lidei com muita gente pela internet, e lidei com muitos argumentos diferentes, mas todos parecidos no que se refere à estupidez. Então seus argumentos não são originais. Você me falar "não leve para o lado pessoal" não me fará considerar que você está certo por um único instante, na verdade, só me fará ter vontade de arremessar você contra a parede e quebrar todos os seus ossos com as minhas próprias mãos.

"Não me diga para me acalmar" - eu não sei onde encaixar o "fucking" na tradução (fuckyeahsubversivekawaii)

"Não seja emocional" diz você falando sobre como eu deveria lidar com meus direitos reprodutivos ou meu direito básico à segurança ou meu direito igualmente básico de ser tratada como uma pessoa decente pelo Estado, pela mídia, pela sociedade. "Você está sendo sensível" diz você sobre meu sentimento de odiar pessoas que fazem piadas de uma cultura que estupra e mata mulheres como eu todos os dias, o tempo todo. "Não se deixe afetar tanto" diz você para mim que já tenho que respirar fundo e ver o Papa, a bancada evangélica, todos esses simpáticos deputados e senadores, jornalistas e humoristas de stand-up, todos esses caras querendo ditar como eu devo viver minha vida. "Isso é só uma piada" e aqui estou eu querendo afiar uma boa faca de cozinha como meu avô sabe fazer tão bem para matar o primeiro cara que me fizer uma maravilhosa piada satirizando o meu corpo? Ou talvez você queira rir dos meus ciclos menstruais? Deve ser engraçadíssimo atribuir qualquer frase ríspida da minha parte à TPM. Pena que não funciona com todas as mulheres, porque (não sei se você sabe) nem todas as mulheres tem TPM (por diversos motivos: elas podem ter corpos tidos como masculinos e não tem ciclos menstruais, outras apenas tem sorte e não sabem o que é TPM na vida delas) mas tenho certeza que isso não é problema e você deve achar um novo e espetacular argumento para desqualificar cada uma de nós. Você sempre vai encontrar uma maneira de nos desqualificar e que maneira melhor poderia existir a não ser taxar as mulheres de "histéricas"?

"Está nervosinha?"
"Oh lá vem a feminista"
"Tá ficando irritadinha"
"Tá histérica"

Vão se foder.

Vão se foder, tipo, MUITO. Vão se foder porque é pior que ignorância. É pior que "não conhecer o feminismo". É pior porque é cruel, é pior porque é má fé, é pior porque é tão perverso quando você desqualifica qualquer coisa que eu diga usando o MEU emocional, tentando me jogar contra eu mesma, tentando me fazer me sentir culpada por se envolver emocionalmente com as minhas próprias pautas, tentando me fazer horrível por sentir raiva, ódio, mágoa e desapontamento. E não pensem vocês que o fato de eu não ter a minha caixa de e-mails recheada de recados de ódio me fará pensar que as pessoas são totalmente amores e simpáticas. Nesse momento, enquanto eu recebo muito amor e carinho (e sou grata por isso), tenho algumas amigas que frequentemente tem seu ask.fm cheios de perguntas invasivas sobre suas genitálias e ofensas e vejo algumas pessoas sendo ofensivas gratuitamente pela internet. Acredite: estou de olho em vocês, eu sei o que vocês estão fazendo e podem nem ter meu nome ali, mas é o meu gênero, é a minha classe, são as minhas condições ou as condições das minhas amigas que você está ofendendo e, acredite, não vou deixar passar só porque não foi diretamente dito para mim.

"Eu acho que você tem coisas mais importantes para lutar"

Sim.
Isso é só uma piada misógina.
Isso é só um filme transfóbico.
Isso é só um livro heteronormativo.
Isso é só uma novela gordofóbica.
Isso é só um anime que incentiva a cultura de estupro.
Isso é só um caso isolado de homofobia.
Isso é só uma lei que limitará o direito ao aborto.
Isso é só uma sociedade patriarcal, homofóbica, transfóbica e opressora em todos os níveis.
Isso é só a vida inteira.

Então, você com seu discurso lindo e privilegiado de "não vejo raças", "trato mulheres com respeito", "apóio gays, contanto que não fiquem desmunhecando", "respeito quem se dá ao respeito", "eu respeito todo mundo, mas mulher é mulher e homem é homem", "se eu fosse negro, me ofenderia com cotas", "acredito na força do trabalho, não nessas esmolas do governo"... você que perde seu tempo dizendo sobre como feministas deveriam ser razoáveis, calmas, controladas e perfeitamente contidas para te educar, ó nobre pessoa, pacientemente e gentilmente sobre como nós vivemos, você que se magoa quando criticamos publicamente, você que faz beicinho, bate o pé no chão e diz "mas não assim! Não generalize! Não somos todos iguais!", você que vomita seu preconceito disfarçado de intelectualismo, você que ri de Rafinha Bastos e Danilo Gentili, você que se recusa a perceber que tem privilégios que eu nunca terei e que eu não posso "não levar para o lado pessoal"...

... vá se foder.

#BONITA DEMAIS PARA ESSA MERDA