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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

meus dois centavos sobre as radfems

Hi! <3

Eu sei que fazem quase dois meses que não tem um post decente minimamente elaborado pela minha pessoinha e as razões são
a) eu meio que tirei férias no recesso natalino
b) eu meio que tinha coisas pra fazer
c) eu estava de saco cheio de ficar falando sobre feminismo, ativismos, etc

(adivinha qual está mais correta? bingo)

Maaaaaaaaaaaas dia 29 é dia da visibilidade trans e como uma amiga amorzinho já tinha mesmo me pedido para escrever sobre transfeminismo e feminismo radical, acho que vou aproveitar e tentar fazer algo pra aproveitar a vibe.

Eu estava de saco cheio por falar nesses assuntos porque eu sinto que estou constantemente me repetindo em coisas óbvias. É óbvio que o feminismo é plural. É óbvio que mulheres sofrem uma carga de misoginia vinte e quatro horas. É óbvio que existe racismo. É óbvio que existe homofobia. É óbvio que existe transfobia-OH WAIT aí cê cria uma "divergência teórica" dentro do movimento feminista. Porque agora transfobia virou diferença de opiniões. Porque agora transfobia é apenas uma teoria diferente. Bem. Temos um problema aqui, minhas lindas ~irmãs~ do feminismo.

Eu não vejo necessidade de explanar sobre o que é transfeminismo quando Hailey já o fez lindamente [link ~~aqui~~], então bora ler o link da coleguinha para aprender os conceitos básicos e absorvê-los no nosso DNA, e então seguir em frente <3

Toda vez que vejo algum conflito entre as correntes "transfeminismo" e "feminismo radical", eu fico refletindo sobre como é possível brigarmos por exatamente os mesmos motivos pelos quais brigamos com "pessoas cristãs que defendem Bolsonaro": por insistirem que determinadas pessoas não podem ser consideradas pessoas com direitos, por demonizarem uma classe inteira, por criarem uma propaganda absolutamente ridícula em cima de pessoas que estão em óbvia desvantagem. Sim, eu estou olhando para vocês, radfems, que insistem que mulheres trans são estupradores infiltrados entre mulheres para melhor ter chance de atacá-las. Sim, eu estou dizendo que eu discordo de vocês e, mais ainda, que eu odeio e desprezo essa linha de pensamento.

Eu não vou ser uma idiota e afirmar que não é importante falar sobre algumas coisas que o feminismo radical fala, como questionar o que queremos dizer com "consentimento" (e acabar com essa ideia de que "consentimento é sexy" e propagar mais a ideia de que "consentimento é o mínimo") ou sobre como devemos desmantelar a indústria pornográfica. Mas, amores, isso não dá passe livre à vocês para saírem chamando mulheres trans de "machos" ou tratando-as agressivamente no masculino. Eu não quero saber das coisas boas que vocês trazem: nós temos capacidade de fazer elas. Não precisamos de transfobia para questionarmos o papel da indústria pornográfica ou tentar entender os mecanismos que regem o mundo da prostituição. Não precisamos agredir mulheres para proteger outras mulheres. Não precisamos diminuir pessoas para conseguirmos nos articular.



Acredito que a partir do momento que uma pessoa se declara feminista, no mínimo ela deve ter consciência do que a palavra significa. Para mim, feminismo se trata não apenas de começar a me irritar com meu gênero sendo retratado de maneira nojenta e abusiva na mídia em geral ou começar a relacionar mulheres mortas por namoradas com glamourização de relacionamentos abusivos em novelas e ensaios fotográficos de moda. O feminismo também significa, pessoalmente, sobre ver outras mulheres não como rivais prontas a me crucificarem assim que abaixasse a guarda ou como pessoas tolas e fúteis que só sabem falar de sapatos e namorados, mas ver essas mulheres como pessoas. Pessoas que são legais, inteligentes, interessantes, falsas, mal-humoradas, gentis. Pessoas que podem ser minhas amigas e me acolherem em momentos ruins, pessoas que podem me odiar e foder minha vida totalmente. Pessoas. Pessoas que estavam em uma situação desfavorável, pessoas que experimentavam um tipo de violência específico só por serem mulheres.

Em suma, o feminismo me permitiu desenvolver meu senso de empatia para com outras mulheres.

Eu confesso que sou extremamente ignorante sobre teorias acadêmicas. Minha conversa aqui com vocês é retirada de blogs, tweets, opiniões e, principalmente, vivências. Coisas que eu vi, coisas que eu soube, coisas que aconteceram. Não sou uma pessoa estúpida. Apenas não sou acadêmica, não sei quem é quem na fila do pão feminista e, principalmente, não acho que isso agrega valor à carteirinha de feminista de alguém. Eu não me importo se você discorda de mim nesse quesito. Realmente eu não estou nem aí: faça o que quiser, ironize os blogzinhos e exija que todas as feministas leiam Germaine Greer ou Andre Dworkin. Estou nem aí. Eu sei que estou fazendo o certo.

Estou certa e tenho tanta certeza disso quanto temos certeza de que dois e mais dois é igual a quatro.

Não sei muito bem sobre como o feminismo radical lida com prostitutas (apesar de que nunca ouço coisas muito boas), mas eu sei como vocês lidam com mulheres trans. Ninguém me contou, ninguém me mandou print, ninguém me chamou num canto e disse algo como "luna, cê não sabe da última...". Não. Eu vi. Eu vi as páginas de ódio. Eu vi os fragmentos de textos de feministas teóricas. Eu vi um post gigante de uma moça que tentava se justificar dizendo que não era transfóbica. Eu vi a maneira como vocês chamam as mulheres trans, usando prenomes masculinos em tom debochado. Eu vi o texto original que Nádia Lapa publicou trocentos anos atrás cheio de transfobia que apagou depois. Eu vi a discussão que Lola fingiu que não viu em seus comentários. Eu vi os "prints" que vocês tiraram para "comprovar" que mulheres trans eram "machos". Eu não preciso ler nenhuma teoria para saber que vocês são um bando de gente escrota. Sim, eu disse isso. Sim, eu sou cis. Sim, eu não ganho nada tendo essa opinião. Acontece que, para mim, entender que existem pessoas trans e que elas sofrem por serem quem são é uma questão de decência. É uma questão simples:

existem ~mulheres~ e existem ~homens~
existem pessoas negras e pessoas brancas e asiáticas e etc
existem heterossexuais homossexuais bissexuais pansexuais assexuais
existem gente rica pobre sem um real na conta
e existem
gente que é transgênera (e existe uma grande variedade de pessoas que se encaixam nessa definição, seja o clássico caso que sempre aparece na TV de "pessoa-que-sente-que-nasceu-no-corpo-errado-e-quer-fazer-cirurgia", seja pessoas que não se sentem de gênero algum, designando-se pessoas não-binárias, entre outros casos)
e gente que não é transgênera, ou seja, cisgênera

aí as pessoas se misturam: você pode ser mulher e trans, ser homem e negro, ser negro rico trans, ser asiática mulher lésbica etc. Enfim. Muitas variações (e isso é legal! diversidade é legal! (⌒▽⌒)☆)
Sei que quando minha amiga me pediu por esse post, provavelmente ela tinha em mente um texto mais formal no qual eu explicasse claramente as diferenças entre transfeminismo e feminismo radical. Provavelmente ela pensou em algo que eu não saísse xingando um monte de gente. Mas, veja bem, ninguém melhor para explicar o transfeminismo do que uma pessoa trans, diretamente envolvida, e eu já dei o link para isso. Eu não sei explicar o feminismo radical e suas teorias, só sei explicar a maneira como vejo suas ativistas e como elas afetam minha visão do feminismo dela. Eu vejo como pessoas que me são queridas são atingidas por elas. Eu só sei sentir a minha própria frustração e decepção com o movimento do qual faço parte. Eu só sei explicar que fico constantemente desapontada com o silêncio das feministas diante de mulheres trans que são agredidas dentro do próprio movimento.

Eu me recuso a acreditar que é "ignorância". É má fé. Vocês não são garotas tolas brincando de feminismo. Vocês tiveram paciência de sentar e compreender Simone de Bouvair. Vocês tem acesso à internet (e, se depender do que eu já vi de vocês - eu vi, não ouvi falar - vocês são estupidamente elitistas, exigindo que todos tenham tempo, paciência e bagagem intelectual para absorver os livros que vocês acham digno e jogam apenas "tá na internet!" "joga no google!" para qualquer um que diz não ter acesso), vocês tem como lerem um monte de teoria feminista e, sobretudo, vocês tem o GOOGLE! Em menos de dois minutos, vocês acham uma série de notícias que fazem cair por terra qualquer "argumento" esdrúxulo que vocês tenham para justificar que mulheres trans são, na verdade, conspiradoras malignas servindo ao grande Chuck Norris e seus comparsas mascus.

(eu realmente não consigo acreditar que é sério que vocês acham que mulheres trans são estupradores disfarçados. tipo, sério. essa galera sofre um puta preconceito, perde mil empregos, é expulsa de família, em um percentual bem alto é forçada a ficar na rua fazendo programa, é negligenciada pelo sistema de saúde, é sexualizada pra caralho, tudo isso pra supostamente estuprar mulheres cis. quando poderiam fazer isso perfeitamente se, por acaso, vivessem como homens cis perante à sociedade. FUCK LOGIC)

Em menos de dois minutos. Vamos lá?

travesti morta (418.000 resultados)

Só isso. Sim, exatamente, não demorou cinco segundos para eu achar todas essas notícias de travestis que foram mortas (experimentei digitar "homem morto" e "branco morto" só pra checar e, bem, são notícias bem variadas: acidentes, brigas, etc. Mas "travesti morta" invariavelmente dá em notícias de assassinato. Se eu fosse boa no inglês, traria diversos links mais diversos sobre estupros, assassinatos e suicídios de pessoas trans em diversas situações.)

Sensacional, não é?

Uma vez tive o prazer de conversar com uma garota que era radfem. Ela estava me explicando algumas coisas sobre o movimento, visões dela, etc. Eu nunca vou esquecer de quando ela me disse que se pessoas cis tinham o privilégio de usarem o banheiro sem constrangimentos (um dos exemplos que citei), então mulheres trans tinham o privilégio de não engravidar porque possuíam um pênis. Nunca vou esquecer disso, porque é uma distorção gigante, bizarra, esquisita e ridícula. É ignorar completamente o contexto do simbolismo do pênis e "não-poder-engravidar" quando se é uma mulher cis e uma mulher trans. É ignorar que mulheres trans são tidas como anormais e exóticas justamente por terem um pênis. É "esquecer" que o fato de não poderem carregar em seu ventre um bebê faz com que elas sejam consideradas "menos" mulheres ou, justamente, "homens" se passando por "mulheres".

E aqui está um ponto que eu critico nas feministas radicais brasileiras que vivem na internet hoje em dia (digo essa classe especificamente porque é com quem tenho contato): parem de polarizar o mundo como se isso aqui fosse uma guerra de sexos. Como se todas as mulheres fossem iguais e todos os homens iguais, como uma única classe dominando a outra. Como se não houvesse questões de classe, cor, orientação sexual. Como se não fosse um intricado quebra-cabeças. Não é porque uma mulher trans tem um pênis que ela é um inimigo, porque o pênis em si não é um inimigo, simplesmente porque embora a gente viva em um mundinho que mil culturas idolatram o falo como órgão supremo da vitalidade e sei lá mais o quê (que o diga o parque com estátuas em forma de pênis da Coréia do Sul), ainda assim a simbologia que ele carrega só pode vir junto de um homem. Simbolos de masculinidade (barba, por exemplo) só são valorizados quando é um homem que os porta. Em uma mulher, é o contrário: ela é tida como estranha, repulsiva, nojenta e totalmente não-atraente e, então, como uma curiosidade de circo, ela é fetichizada.

Além disso quando feministas radicais argumentam que "mulheres trans estão tentando forçar lésbicas a transarem com elas, lésbicas que tem horror ao pênis", eu - como cis - me questiono o quão disso é sensato. Novamente, falo do que vi: mulheres trans que questionam o conceito de "ser mulher = ter vagina, útero, etc" e, portanto, a própria ideia que lésbica que é lésbica não suporta o pênis e/ou só "come buceta". Quando elas apontam que rejeitar uma pessoa por conta dos genitais é, basicamente, resumir ela aos genitais (e, ora bolas, é), cria-se uma confusão dos diabos como se

"cara, não é legal você ficar 'ai que nojo, ela tem pênis', porque o corpo dela não é nojento, bora refletir isso e trabalhar mais sobre como nos relacionamos com genitais como se eles fossem, tipo, a coisa que mais determina nossa atração sexual" fosse a mesma coisa que "cara você TEM que transar com ela senão você está sendo transfóbica"

Eu entendo que a vulva, vagina, clitóris e todas essas coisas que compõem os genitais de uma mulher cis são ojerizados e tidos como "feios", "estranhos" e, no mais suave dos termos, "misteriosos" e que há uma grande tentativa de valorizar tais partes do corpo, celebrá-las como belas e prazerosas. Não sou contra, inclusive apóio. Mas eu acho que não é necessário antagonizar o pênis, especialmente os das mulheres trans, nessa celebração. Ainda mais: eu acho bizarro que mulheres trans tenham suas identidades apagadas e personalidades ignoradas para que as pessoas só consigam focar no bendito pênis e então começarem a dizer sobre o quão elas são machos estupradores. É esquecer que elas são pessoas. Pessoas como eu e pessoas como você. Elas tem sentimentos, e elas estão vulneráveis. 

Quando vocês falam de mulheres trans como se elas fossem estupradores, esquecem que elas estão, assim como mulheres cis, sujeitas à situações de abuso. Grande parte das mulheres transgêneras (não sei exatamente a porcentagem) é forçada a viver na prostituição e isso significa que a exposição aos estupros, fora as inúmeras situações de assédio sexual, verbal e físico, aumenta em nível alarmante. Por não conseguirem arrumar empregos (porque ninguém quer uma pessoa trans), e isso significa que não conseguem uma renda própria, então elas não tem nenhum tipo de segurança financeira ou psicológica. Eu me pergunto como, raios, vocês conseguem ser tão cruéis com pessoas que o mundo já se encarregou de chutar o quanto for possível. Como vocês podem ser tão ruins com mulheres trans que decidiram se articular em prol de si mesmas e conseguirem lutar por direitos, por uma sociedade que as trate como gente. Como vocês podem ter a ousadia de excluirem essa classe de um movimento que deveria acolhê-las, por questão de princípios.

Eu não quero soar a mulher cis que se pôs como a grande defensora sei lá o quê. Não sou. As mulheres trans são perfeitamente capazes de falar por si mesmas, com textos muito mais bem articulados que o meu, com conhecimento de causa muito, muito maior do que o meu. O site Transfeminismo vai compilar textos de mulheres trans especialmente para esse dia, e eu realmente espero que você leia. Qualquer texto delas sobre tal assunto vale dez, vinte, cinquenta textos meus sobre a mesma coisa.

Eu quis falar essas coisas primeiro porque eu disse que faria, e segundo porque eu precisava falar. Porque eu precisava organizar minhas considerações sobre o que conheço do feminismo radical e do porquê eu não curtir essa vibe. A minha voz é uma. Minha opinião não pode substituir a de nenhuma mulher trans, então - se você quiser compartilhar textos sobre transfeminismo, pautas desse movimento, privilégios de ser cisgênero, etc - sério, use fontes de pessoas transgêneras. Divulgue a voz de quem é diretamente afetada.

Encerro aqui.
Não sou sua irmã, radfems.
Não me chamem de irmã.

Apenas deixem minhas amigas em paz.

(sim, levei pro lado pessoal)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

desejando purpurina na vida de vocês porque sim

Hi <33
Eu sei que estive absolutamente ausente nesse dezembro (por motivos de força maior), mas ainda assim eu gostaria de dizer que exatamente hoje, nessa ilustre data, esse blog adorável completa um ano de existência. Eu fico muito, muito feliz de ver que tantas pessoas gostam desse blog, e mais feliz de ver que tem pessoas que encontram nele um espaço de conforto e segurança. Confesso que até gostaria de escrever mais, talvez a ritmo de um blog mais profissional, mas me falta saco para falar de feminismo ou racismo ou transfobia ou qualquer coisa do gênero o tempo todo. Até houve um tempo que eu faria isso vinte e quatro horas por dia, mas eu sinto que fazer isso afeta seriamente a minha sanidade mental - e o conselho mais sábio que Renata (a Mol) já me deu foi de eu pôr minha saúde mental em primeiro lugar. Então eu escrevo quando dá, quando a pauta é interessante, quando me incomoda não escrever e escrevo para conseguir articular minhas próprias ideias de uma maneira minimamente coerente.

Não há absolutamente nada nesse blog que eu considere imutável. Claro, acredito eu que nunca mudarei de feminista para uma defensora fervorosa dos ideais cristãos, mas eu acho que preciso sinalizar isso de vez em quando: esse blog é sobre construção de ideias. É sobre mim, sobre meu mundo, sobre minha realidade e sobre as minhas amigas. É um blog onde eu escrevo para transmitir o que eu estou pensando e o que estou achando que é melhor naquele momento. Tem ideias específicas dentro do feminismo que ainda não tenho um conceito claro e definido. Até porque eu sou uma pessoa em construção - e meus textos vão refletir isso. Não sou uma pessoa acabada, e eu peço à vocês para não tratarem minhas opiniões como coisas que estão definitivamente "certas" para mim, coisas que eu nunca mudarei de ideia.

Eu fico imensamente grata por todo o apoio que vocês tem me dado. Eu fico feliz com cada comentário, positivo ou não, cada compartilhamento, cada vez que alguém diz que quer conversar comigo sobre algo sobre o qual falei.

Cansei de dizer que eu nunca tive "haters" ou pessoas perdendo seu precioso tempo para me xingar, como já ocorreu com algumas das minhas amigas e outras feministas mais famosas também. Fico feliz por isso - que eu tenha recebido mais amor e carinho do que propriamente ódio e raiva. Não sei qual é a mágica que me faz não ter uma fileira de gente falando mal de mim, talvez eu apenas nunca chamei nenhum seguidor estúpido de Danilo Gentili para briga ou eu mesma não sou exatamente uma pessoa polêmica, mas percebo que ter esse tipo de reação extremamente comum é extremamente estressante e desanima - porque é difícil se animar a escrever longos textos ou apenas falar a respeito quando você sabe que pessoas mal lerão seu texto antes de partirem pra cima de você. Acredito que o fato de ter tantas pessoas positivas ao meu redor - na vida presencial e na online - me motiva a ser uma pessoa mais gentil e simpática com vocês, inclusive :33

O que eu desejo para 2014? Eu não sei exatamente.

Para o blog, não desejo nada de especial. Não tenho planos de transformá-lo em algo profissional, porque eu não tenho tempo nem competência para tanto. Tem gente que consegue, acho lindo, acompanho, etc. Mas é preciso muita disposição, muita criatividade, muito empenho e muito tempo - e eu não tenho nada disso, e o que eu tenho prefiro focar em outras coisas como minha faculdade e outros projetos paralelos. Mas há coisas que eu desejo para vocês:

Eu desejo para vocês mais auto-estima, mais amor por si mesma, mais paixão pelos seus corpos - e no caso das mulheres trans, menos disforia (não sei se a palavra pode ser usada para mulheres cis, então preferi especificar). Eu imagino o quão difícil é quando a nossa aceitação é tão vinculada com aceitar os nossos corpos, mas eu desejo isso à vocês: que vocês terminem 2014 amando mais quem vocês são do que amavam em 2013.

Eu desejo para vocês maior força e resistência. Não acredito que o mundo magicamente se tornará menos racista ou misógino, então eu só posso desejar à vocês melhores condições psicológicas de suportarem as agressões que ainda vão vir. Que vocês consigam ter resistência o suficiente para não se deixarem curvar e força o bastante para revidarem o quanto for possível.

Eu desejo grana - vamos ser honestos, grana é fundamental. Paga tudo que precisamos minimamente para vivermos em boas condições.

Eu desejo uma internet rápida e que baixe torrents decentes, e séries lindas e maravilhosas e que possamos shippar mais e mais casais sem julgamentos.

Eu desejo que você tenha amor - não necessariamente o amor romântico - de pessoas namoradas, amigas, familiares. Eu desejo que, nesse ano, sua família te julgue menos por sua orientação sexual, que você se aceite melhor por não ser o melhor que você imaginou que conseguiria ser segundo padrões falhos, que você sinta menos culpa de não ser a mãe empresária esposa mais fodona do mundo. Eu desejo mais videoclipes decentes e, pelo amor de deus, eu desejo que Christina seja vista trabalhando e fazendo mil coisas.

Eu desejo bastante sexo feliz se você é uma pessoa que gosta de sexo e eu desejo que você não seja perturbada, incomodada, assediada, agredida, estuprada se você não está afim, se não gosta, se etc. Eu desejo que o departamento "sexo" esteja ok para você esse ano, independente de você ser uma pessoa que prefira orgias ou apenas seja assexual.

Eu desejo apenas isso:

que esse ano termine sendo mais positivo do que negativo para vocês.

Porque esse ano terá coisas negativas. O mundo não deu um reset e ressurgiu hoje - ele apenas continuou. O Reveillon é mais simbólico que qualquer outra coisa - mas isso não significa que não seja legal. Então eu realmente desejo isso à vocês: que vocês consigam lidar com as coisas negativas e que valorizem as positivas. Que 2014 seja um ano que você não queira apagar da sua vida <33

E feliz 2014! (◡‿◡✿)


domingo, 1 de dezembro de 2013

Quando nós não somos (apenas) vítimas.

Ou deveria amar você — sempre (fonte)

Quando eu descobri o feminismo, acreditei que feministas eram sempre pessoas corretas e coerentes. Não que eu acreditasse na perfeição, mas é que eu presumia que quando uma pessoa se dizia feminista, é porque ela já tinha desconstruído diversos preconceitos dentro de si e que se esforçava para viver segundo seus princípios. Eu acreditava que ser feminista era a mesma coisa que ser uma pessoa decente.
Eu estava tão, tão, tão, tão errada.

Ver situações completamente surreais de perceber feministas se recusando a perceberem transfobia ou racismo em seus argumentos, feministas perseguindo feministas de uma maneira totalmente insana, a própria contradição nas criticas, a negação de receber críticas pertinentes ao movimento e a constante sensação de que temos que estar em alerta - porque não nos sentimos seguras, mesmo dentro do movimento: isso é estranho, é bizarro e é horrível. Não tem nada mais horrível do que perceber que seu próprio movimento, do qual você faz parte, tem um milhão de problemas - tantos problemas que você chega a se questionar se gostaria de se identificar como feminista também, porque não quer estar associada à isso. Não mais.

Mas eu continuo sendo, porque feminismo não é sobre essas pessoas, mas é sobre uma ideia na qual eu acredito: a de empoderar mulheres diante da subjugação de gêneros, a de romper com os padrões que nos limitam à uma dicotomia binária de homem/mulher, a de subverter todas as noções de gênero que conhecemos. Eu acredito que é possível destruir o patriarcado, mas não acredito que é possível fazer isso e continuar mantendo diversas outras formas de opressão - e é por isso que acredito que é urgente o feminismo, como movimento, perceber que não pode agir sozinho. Mulheres não constituem a única classe oprimida do mundo. Mulheres não são apenas mulheres: elas também são ricas ou pobres, brancas, pardas ou negras, índigenas, asiáticas ou fazem parte de qualquer outra etnia e/ou raça que não conhecemos bem, heterossexuais ou homossexuais, bissexuais ou assexuais, possuem deficiências - e as próprias deficiências são numerosas, cada uma delas formando uma classe a parte.

Nenhuma pessoa é apenas uma característica, e o patriarcado não é o único mal do nosso mundo - e a nossa falha, enquanto feministas, é não perceber isso.

Nós não somos um movimento perfeito. Não somos perfeitas. Não vivemos em um vácuo. Nós nos contradizemos. Nós falamos merdas e não nos desculpamos depois. Nós não queremos ouvir críticas porque elas são dolorosas e porque são verdadeiras, e não queremos ser acusadas de não assumirmos nenhuma responsabilidade e, sim, é mais fácil para gente esquecer que o fato de sermos mulheres não nos isenta da responsabilidade perante outras minorias.

Talvez... nós nos acostumamos a nos considerarmos vítimas por tanto tempo que não queremos aceitar que há situações que não somos vítimas, mas algozes.

É difícil viver em um mundo que as coisas não são preto no branco, não é mesmo? Eu sei que é. Mas é o mundo em que vivemos: há os tons de cinza e enquanto mesmo o homem mais explorado terá a sua escrava em casa, e mesmo essa escrava exercerá seu poder quando expulsar a sua filha de casa porque ela lhe disse que não era mais João e sim Maria. Vê? Não é porque o homem proletário é explorado por ser mais pobre que deixa de oprimir sua esposa, e não é porque essa esposa é oprimida por ser mulher cis que deixa de oprimir sua filha por ser mulher transgênera. As opressões não se atenuam, não se anulam, não se minimizam, ao contrário: elas se acumulam cada vez mais. Nada é mais eficiente do que uma sociedade cuja estrutura permite que pessoas oprimidas possam oprimir outras, dependendo das circunstâncias - e é tão conveniente perceber apenas as situações nas quais somos as vítimas, mas ignorar aquelas em que somos os algozes, não é?

Não somos as vítimas no período integral do nosso tempo - e é fundamental percebermos isso.
Essa é a maior crítica que faço às feministas e eu odeio fazer essa crítica, mas acho importante: o nosso imenso egocentrismo de acharmos que tudo no mundo é sobre nós, de que somos a classe mais terrivelmente explorada, de que o nosso sofrimento é maior do que de qualquer outra classe explorada, de que somos tão exploradas que é impossível a nós explorar alguém e - o principal de tudo - que constituímos uma classe homogênea, onde vivenciamos as nossas opressões de modo mais ou menos parecido.

Como se ser uma mulher branca cis e hetero na França seja a mesma coisa que ser uma mulher negra lésbica e trans no Brasil.
Como se eu vivenciasse as dores de ser mulher do mesmo jeito que Carla Bruni.
Como se a CeCe vivenciasse a sua identidade de gênero feminina do mesmo jeito que eu.
Não dá.
Simplesmente... não dá.

"Oh, então isso significa que eu sou uma pessoa maligna porque sou hetero?"
Não.
"Ah, então quer dizer que ser uma mulher cis é um privilégio? Agora estupro corretivo e menores salários são privilégios?"
Não seja tão desonesta assim.

Deixe sua desonestidade para jogos de azar e variantes. Aqui, vamos ser pessoas legais e empáticas? Eu já ouvi que "daqui a pouco até ter buceta é transfobia" (alguma semelhança com "daqui a pouco ser hetero vai ser crime"? Um alô para a honestidade de vocês), já ouvi que mulheres trans são privilegiadas por não engravidarem, já ouvi que "não deveríamos criticar Lily Allen" porque o videoclipe fez mulheres negras se sentirem completamente desconfortáveis e objetificadas "porque ainda assim vídeos assim são importantes pro feminismo" e foda-se se ignoramos a questão racial, não é mesmo? Mas sabe de uma? Foda-se. Talvez eu esteja sendo cega; talvez eu esteja faltando com a sororidade; talvez eu esteja me recusando a entender vocês. Talvez eu esteja demonizando vocês.
Talvez.

Mas eu me pergunto como é que entramos nesse jogo de demonizarmos uma a outra. Como é que entramos nessa guerra em que nenhuma de nós vai vencer? Porque não haverá vencedores, no fim das contas, porque todas nós nos lascaremos na vida de algum jeito: seja nos matando por não suportamos carregar mais o peso de ser transgênera, seja assassinadas por ex-namorados com ciúmes doentios, seja levando tiros "acidentais" enquanto voltamos para nossas casas em bairros na periferia. Não há exatamente um destino feliz para quem conseguir vencer essas disputas dentro do nosso movimento, a diferença está apenas que algumas vão se foder (muito) mais e outras menos. No fim, todo mundo se fode (exceto os caras brancos heteros cis e ricos, ah, esses sempre estão vencendo na vida).

Eu preciso superar o meu constante desapontamento com o feminismo e entender que o fato de uma mulher ser feminista não significa que ela é uma pessoa da qual gostarei. E eu preciso lembrar dos meus princípios e eles são basicamente: eu quero fazer o que é certo e nada mais.

Não quero dar uma de hipócrita ou moralista, até porque é presunção demais supor que eu sou diferente de vocês, mais "íntegra" ou mais "honesta" ou qualquer coisa que valha. Assim como toda e qualquer pessoa, tenho minhas falhas e meus problemas, e digo/penso/faço coisas problemáticas. Não é um debate sobre a nossa integridade pessoal, não é sobre se estamos sendo corretas o tempo todo. Se trata sobre a nossa própria coerência e de respeitar os nossos princípios. É sobre se estamos conseguindo fazer conosco o que exigimos que outras pessoas façam, é sobre se sabemos ser humildes e reconhecer que não estamos certas o tempo todo e que erramos, e sobre saber pedir desculpas. Principalmente: saber pedir desculpas.

Então.

Não é exatamente um post original, inovador, nem estou falando nada de novo. Já disse isso milhões de vezes. Mas é necessário repetir isso milhões vezes milhões de vezes: nós precisamos reconhecer as nossas falhas. A nossa sororidade é seletiva, excluímos diversas categorias, fingimos que não podemos oprimir e usamos a nossa própria condição de oprimidas como desculpa para fingir que outras causas são menos importantes. E quando somos chamadas à atenção, nos recusamos a pedir desculpas. Dizemos que o problema não é com a gente. E fica tudo por isso mesmo.

Não deveria. Se somos o movimento acolhedor, seguro e aberto para as mulheres que afirmamos ser, não deveríamos fazer isso. Sabe aquela frase que não sei de quem é, mas que diz que a mudança começa em nós? Então.

Esse texto foi uma acusação? Eu não sei. Talvez. Se for, isso me incomoda? Não. Definitivamente não. Não é agradável para mim escrever esse tipo de texto, mas se eu não o fizer, sinto que passarei meus dias resmungando opiniões dadas pela metade, como se minha opinião fosse tão importante assim. Mas quem sou eu? Façam o feminismo de vocês. Façam como quiserem, porque não serei eu a ir direto no inbox de vocês e lembrar que tem coisa errada nessa equação. Vocês que sabem. Isso é só um blog e não é um blog de teoria feminista. Me perdoem se eu não sou tão acadêmica como deveria ser, se eu não estou aqui desenvolvendo nenhuma teoria social ou traduzindo feministas clássicas, me perdoem se tudo o que eu faço é escrever sobre as suas incoerências e, principalmente, me perdoem porque eu não dou a mínima para isso e continuarei fazendo isso enquanto continuar tendo disposição para tal coisa.

Se você leu até aqui e lembrou de determinadas situações que acontecia algo que eu me referi, bem, então você sabe o que eu quero dizer. Acredito que boa parte das pessoas que visitam meu blog já estiveram em uma situação que perceberam os diversos feminismos que existem e suas diferenças. Espero sinceramente que você pense com carinho nessas coisas que eu disse, e em todas as situações que você percebeu essas coisas, e pense em como é essencial que nós sejamos honestas quanto ao que acreditamos e seguimos. Isso não é sobre quem é a má e quem é a boazinha, mas sobre pessoas que estão se sentindo machucadas e pessoas que estão machucando e não querem perceber isso.

Isso não é sobre quem está errado e quem está certo. Não é sobre seu orgulho.
É sobre perceber porque que mulheres estão preferindo se preservar de outras mulheres autodenominadas feministas e então fazer algo a respeito. É sobre respeitar essas pessoas e entender que elas não estão se resguardando porque estão paranóicas, mas porque foram machucadas e então respeitar esses sentimentos. É sobre perceber o quão covarde é da nossa parte usar a nossa identidade feminina como escudo para fecharmos os olhos para outros tipos de privilégios e opressões, e o quão estúpido é ficar na defensiva e ridicularizar as pessoas quando elas nos criticam. Não estamos sendo tão legais assim, então o que vamos fazer a respeito?

É sobre isso: o que vamos fazer a respeito diante das críticas legítimas ao nosso movimento?
Apenas isso:
o que vamos fazer a respeito das nossas falhas enquanto movimento político e social?

fonte.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Porque não faz sentido dizer que uma mulher é machista.

E porque pessoas brancas não sofrem racismo.

comercial antigo que achei no google
Eu passei muito tempo da minha vida acreditando em mulheres machistas. Acreditando que mulheres podem ser tão machistas quanto caras. Bem, hoje já não tenho essa opinião. Ainda não sou essa pessoa evoluída espiritualmente que consegue ser um amor e explicar de forma extremamente paciente para mulheres que demonstrem opiniões machistas, mas estou tentando melhorar. Ainda não consigo sentar, conversar de boa e ser mais paciente com uma mulher, e eu tenho dúvidas se conseguirei isso algum dia, mas eu estou constantemente lembrando à mim mesma de que é impossível existir mulheres machistas, assim como é impossível pessoas negras serem racistas. É um processo de aprendizado. Ainda chego lá.

A maior dificuldade que as pessoas tem de entenderem esse ponto é porque nós associamos machismo à uma mera opinião de que homens sejam superiores às mulheres. Então se cria páginas como Moça, Você é Machista veiculando esse tipo de pensamento: de que machismo se trata de uma opinião que, por acaso, é a que a sociedade tem. Como se machismo fosse uma "ideologia" que "basta pensar diferente". Como se o machismo fosse apenas uma linha de pensamento que vai contra as mulheres e é por isso que temos que mudar as coisas, e adotarmos uma linha de pensamento que iguale mulheres aos homens. Essa mesma linha de pensamento vai lá e veicula ideias de que feminismo se trata apenas de igualdade, sem pensar criticamente no que se trata essa igualdade. O que se torna muito curioso de se observar porque você verá feministas X veiculando ideias de que feminismo não é sobre mulheres superiores aos homens, e sim mulheres iguais aos homens, e então você vê outras feministas Y completamente ofendidas com essa ideia - e há essa diferença de opinião. Ao meu ver, se trata de um desentendimento que acontece porque nem as feministas X pensam criticamente sobre a ideia que elas estão veiculando, nem as feministas Y estão conseguindo explicar claramente o que elas querem dizer ao não gostarem dessa imagem que se perpetua.

Eu não posso e não quero culpar as feministas X. Eu fui uma delas por muito tempo (e vocês podem verificar isso pelos textos mais antigos desse blog e no de Pernície, por exemplo) até perceber, depois de alguma leitura, no quão mais crítica eu precisava ser sobre meu próprio movimento. Não acho que sair criticando elas como se elas fizessem tudo errado seja o caminho.

Então, temos os seguintes tópicos:
a) Mulheres não podem ser machistas.
b) O feminismo não se trata de "igualdade" entre gêneros.

Por quê? Veremos:

1) Premissa errada um: machismo não é apenas uma "ideia" errada.

Eu sei que se vocês forem na Wikipedia ou algo parecido, é algo assim que encontrarão. Mas na prática, a coisa funciona de uma maneira um pouco diferente. Eu gosto de pensar que o machismo [homens legais, fortes, corajosos que morreram em guerras > mulheres inúteis, fracas, donzelas em perigo] é uma crença que só se sustenta dentro do patriarcado, e uma crença fundamental para que o patriarcado se perpetue. Quando uma pessoa é machista, o que ela está fazendo é se servir de uma crença corrente para oprimir outras pessoas. Porém uma mulher não pode oprimir a si mesma. Ela não tem como oprimir outras mulheres por ser mulher. Ela não tem esse poder, porque mulheres não tem esse poder. Ela pode até se erguer, dizer que é machista e repetir mil vezes que mulher tem que ficar em casa e homem no trabalho, mas ela nunca será a beneficiária disso. Quem ganha com esse jogo é o homem, e só o homem.

Sim, eu entendo que é quase inevitável surtar e dizer que uma mulher é machista quando você vê uma garota reafirmando que machismo é legal e que feministas são chatas bobas cara de melão, e eu sei que dá uma louca vontade de sacudi-la até ela perceber o que está fazendo, mas é preciso lembrar que ela, por mais que esteja demonstrando ideias machistas, não é a beneficiária disso. Ela não vai receber nenhum agrado, não vai ser elevada ao mesmo status do seu opressor. Vai continuar a ser oprimida assim como qualquer outra mulher. Ainda vale apontar outro ponto: ser mulher é difícil. Ser parte de qualquer minoria é difícil. E pessoas querem se incluir na sociedade. Não todas, eu sei, mas uma maioria muito significativa tem necessidade de aprovação, necessidade de ser incluída, necessidade de ter suas ideias validadas. Considerando que nós somos educadas a sentir que precisamos de aprovação masculina o tempo todo, então uma mulher que perpetue ideias machistas não está fazendo mais do que procurar ser aprovada. Eu não sei vocês, mas por mais que eu fique maluca ao ver esse tipo de coisa, não consigo não compreender. Eu tenho que compreender. Eu preciso entender que é uma maneira que aquela mulher encontrou de sobreviver na sociedade: concordar com seu opressor e ficar na linha.

Então... vamos pegar outros exemplos. João é cis e é branco, e é gay. Ser gay é muito difícil para ele, porque sua família não gostou nadinha da história e ele vive cheio de culpa internalizada. João acha que "pintosas" são um problema para os gays. Ele acredita que se gays fossem todos "normais" e não ficassem saltitando por aí, espalhando purpurina com as cores do arco-íris, então os gays teriam muitos menos problemas de serem aceitos pela sociedade. Se uma pessoa heterossexual acredita nisso, bem, ela é homofóbica. Ela está oprimindo outras pessoas que são gays, porque ela tem poder para tal. A sociedade deu poder suficiente à pessoa heterossexual de oprimir outras minorias no campo "orientação sexual". Mas João não. João acreditar nisso não fará com que ele possa oprimir outros gays. Ele está constantemente se policiando para se enquadrar nas regras da sociedade e ser aceito por uma sociedade que não o aceitará de qualquer maneira. João não tem poder suficiente para executar essa homofobia contra si próprio, simplesmente porque a sociedade não lhe deu esse poder.

Porém João pode ser bifóbico. Se ele argumentar que bissexuais são pessoas indecisas e que são apenas "gays enrustidos que atrapalham o andar da carruagem", bem, está sendo bifóbico. João é branco e cisgênero, e é homem, e ele pode ser racista, transfóbico e machista. Ele tem poder suficiente para veicular esses tipos de opressão. Como um homem, ele pode oprimir mulheres, e como um homem cis, pode oprimir pessoas transgêneras. Nós vivemos em uma sociedade que consiste em dar poder às determinadas pessoas para oprimir outras. E embora haja uma classe composta de homens brancos, cis, hetero, etc que sejam como uma Irmandade dos Senhores Combos de Privilégios, ainda assim todas as outras pessoas restantes podem ter características que as façam ter uma parcela de "ser opressor". Eu, enquanto mulher, não sou a beneficiada pela misoginia. Se eu chamo outra garota de "vadia", eu não estou me beneficiando disso - uma hora eu vou receber o mesmo tratamento. Mas eu sou cis, e enquanto eu for cis, eu tenho pleno poder ser transfóbica que a sociedade me conferiu. O Estado com suas estruturas permite que eu invada privacidade de pessoas trans, pergunte à elas sobre seus órgãos genitais, deslegitime suas identidades e determine que seus corpos são errados - eu sou autorizada para ser transfóbica, porque eu me beneficio de um sistema transfóbico enquanto pessoa cis, recebendo todos os privilégios de uma sociedade cissexista.

Mas eu não recebo os privilégios de uma sociedade misógina ou de uma sociedade racista. Eu nunca receberei. Essa é a questão: você é a pessoa que está se beneficiando com essa parcela do sistema? Você é a pessoa que tem poder para oprimir outras pessoas? Se você tem esse poder, sim, você é machista, homofóbico, racista, etc. Se você não tem esse poder, bem, você está veiculando ideias referentes à um padrão que te odeia, te exclui e te ojeriza. Mas não, você não poder suficiente para oprimir outras pessoas - por mais que você ache que tenha.
essa eu achei no facebook, não sei quem fez
2) Premissa errada dois: feminismo não é sobre igualdade.
Esse é um dos pontos mais controversos, mas eu acho mais fácil de explicar. É fácil dizer aos caras para eles ficarem tranquilos que não estamos tentando instaurar nenhum matriarcado e escravizar todos os caras do mundo, que tudo o que queremos são apenas coisas como salários iguais e poder transar com quem quiser sem ter gente enchendo o saco. Isso é fácil. Tenho certeza que um monte de cara vai dar joinha porque, se você parar pra pensar, isso não soa tão ameaçador assim. Mas seu propósito para o feminismo é apenas, unicamente a igualdade? Eu não estou me referindo à igualdade nos termos das leis - eu acho que todo mundo tem que ser tratado pelo Estado da mesma maneira ou, talvez, nem existir um Estado fosse a melhor solução. Mas... o que é igualdade?

Com quais homens você está querendo igualdade? Para quais mulheres?
Essa é a pergunta que você deve responder para si mesma. E quando responder, você vai perceber porque o discurso do "feminismo é sobre querer igualdade" não abrange tudo o que queremos e necessitamos.

Talvez funcione para mulheres brancas, cis, hetero e classe média que querem ser igualadas aos caras brancos, cis, hetero e classe média. Mas não funciona pro resto, porque não é como se todas as mulheres estivessem no mesmo patamar de opressão e - surprise! - não é como se todos os homens estivessem no mesmo patamar dos privilégios. Nós temos que lembrar que mulheres são divididas em muitas categorias: elas são ricas e pobres, brancas e pardas e negras e asiáticas e indígenas, heterossexuais, lésbicas, bissexuais, pansexuais ou elas são cis e trans, e elas podem ter deficiências ou não. Cada segmento tem suas necessidades específicas sobre as quais ninguém pensa quando diz que é tudo sobre "igualdade". Caras também são divididos em um monte de categorias do gênero, e elas não estão em posições iguais. E ainda há as pessoas não-binárias que também estão divididas em todas essas categorias. Caras heteros não estão em posição igual à caras gays, e mulheres pobres são completamente marginalizadas em relação às mulheres ricas. Porém duvido que uma feminista que seja branca e rica queira ser equiparada aos caras negros e pobres, porque ela quer ser igualdade ao cara branco e rico que possui os privilégios que ela não tem. E tenho sérias dúvidas sobre ela pensar criticamente sobre os privilégios dela de ser branca e rica. Nessa vibe de todo mundo querer igualdade, mas sem especificar de quem para com quem, o que acontece? Hm, eu tenho uma hipótese e ela é:

as pessoas igualam erroneamente todo mundo como se a galera toda estivesse no mesmo barco.
surprise: não está.

Então quando vem uma feminista que é branca e rica fazendo todo um ativismo que ignora completamente as questões de cor e de classe, bem, eu não tenho como me sentir inserida. Não estou no mesmo barco que ela, por mais que sejamos ambas mulheres cis. Quando o foco dela é conseguir salários iguais aos caras brancos ao passo que ignora que mulheres negras recebem menos do que mulheres brancas (e vão continuar a receber menos mesmo em uma situação que as mulheres brancas recebam a mesma coisa que caras brancos, porque o racismo não está nem mesmo posto em conta, que dirá solucionado), ela está fazendo um feminismo que não atende todo mundo. Que seja. Mas é importante que nós percebamos esses detalhes. É importante que nos questionemos o que nós queremos dizer quando falamos de igualdade e é importante lembrar qual categoria nós temos em mente quando desejamos nos igualar à "algo". Eu preciso que essas diferenças dentro da diferença sejam lembradas e discutidas, e é preciso que as pessoas percebam que as pessoas simplesmente não são e nunca serão iguais, e não é esse o problema.

Não se trata de conseguir a simpatia dos seus opressores e então conseguir se sentar ao lado dele no trabalho e tomar um cafezinho, mas se trata de destruir um sistema que faça daquelas pessoas seus opressores. E isso é ameaçador. Isso é ruim para os opressores, porque eles querem se sentir como se te dessem um favor ao te aumentarem o salário enquanto criam um vagão especial no metrô. Eles ainda são seus opressores e pode ter certeza: uma parte da minoria até que pode conseguir uma "igualdade", mas isso não resolve o problema porque continua existindo uma classe oprimida por outra.

Eu não quero mais "igualdade". Cansei dessa merda. Ela não expressa tudo o que eu desejo, sinceramente falando, que é basicamente destruir tudo isso de uma vez e acabar com essa história de existir opressores e oprimidos. 
"você é um cara cristão, hetero e branco e pensa que está sendo oprimido? diga-me o quão duro isso é para você"
3) Lembrete número um: e é por isso que pessoas brancas não sofrem racismo.

Acredito que se você leu até agora, entende meus pontos sobre como isso não se trata de "ideias errôneas que podemos erradicar", mas de uma estrutura sobre a qual a nossa sociedade está montada. É por isso que mulheres não podem ser machista, e é por isso que pessoas brancas não sofrem racismo. A ideia de que machismo é apenas uma ideia errada, bem como racismo ou homofobia, faz com que a gente esqueça de como tudo isso é um sistema perverso para oprimir e torne a coisa toda algo genérico que qualquer pessoa pode sofrer. Então as pessoas convenientemente esquecem que racismo é estrutural, corroborada pelo Estado, historicamente perpetuada por pessoas brancas, e acham que é qualquer coisa ruim que se fale a respeito da cor de sua pele. E, cara, sabe de uma? Não é.

Racismo é opressão. Machismo é opressão. Transfobia é opressão. Homofobia, bifobia, lesbofobia são opressões. Gordofobia é opressão. E estou esquecendo de um monte de categorias aqui, mas acrescente-as mentalmente.

Você é branca e uma pessoa disse que tu tá muito branca e precisa tomar um sol? É algo idiota a se falar, mas não é racismo. Racismo é outra coisa. É opressão sistemática de um sistema que se beneficia mantendo pessoas negras na marginalidade. Você é uma pessoa magra e acredita sofrer opressão "gordofóbica"? Bem, se você é uma mulher, com certeza você está sofrendo uma opressão misógina - que acredita que mulheres devem se enquadrar em padrões restritos de beleza - mas não é gordofobia. Gordofobia é outra coisa e fala especificamente de como pessoas gordas são sistematicamente excluídas de empregos e tidas como pessoas doentes, feias, nojentas e completamente ojerizadas por médicos e matérias de revista.

É verdade que caras podem receber estilhaços de misoginia quando saem dos seus papéis designados - por exemplo, ao se assumirem gays [muito da homofobia é completamente misógino] ou mesmo fazerem qualquer coisa minimamente associada ao universo feminino. É verdade que uma mulher cis que tenha características tidas como masculinas pode receber dúvidas sobre sua identidade e ter sua privacidade invadida, o que pode significar reflexos da transfobia. Estilhaços, reflexos, tudo isso, porém, são uma parcela muito ínfima: as opressões tem alvos e eles são muito bem definidos.

Não assuma que sofra uma opressão que não sofre. As pessoas sofrem por diferentes motivos, desde por ser mulher na Índia até por ser uma pessoa baixinha em, sei lá, Nova York. Isso não significa que pessoas baixinhas sofrem opressão. Opressão é outra coisa.

Lembrem-se disso: opressão é mais que uma opinião ruim sobre alguém, opressão é estrutural, parte de um sistema que privilegiará certas pessoas em detrimento de outras. Opressão significa tornar o corpo dessas pessoas errados, estranhos e/ou repulsivos [e disfarçar com "é gosto pessoal"], significa exclui-las do mercado de trabalho de forma deliberada [disfarçar com uma questão de "o empregador tem direito de escolher o que quiser"], significa impor à essas pessoas um conjunto de regras que não existem para a classe privilegiada [exigir que mulheres sejam "puras" ou que pessoas trans se enquadrem completamente em seus gêneros de acordo com os moldes da sociedade], significa limitar o acesso de direitos básicos à essas pessoas [direito de ir e vir no caso de pessoas cadeirantes e cegas, direito ao aborto no caso das mulheres cis, direito à uma identidade reconhecida no caso de pessoas trans], enfim: eu poderia fazer uma lista imensa sobre o que significa opressão, mas acho que deu pra entender o sentido da coisa. Por isso não faz sentido uma pessoa branca afirmar que sofre racismo. Não faz. Não tem como.

E se você continua achando que sim, só devo supor que tu tem uma má fé do caralho.

4) Lembrete número dois: afirmar que mulheres são machistas abre brecha para culpabilização da vítima.

Eu odeio essa ideia de fazer dois pólos distintos nesse mundo de pessoas boazinhas versus pessoas más. Não acredito que dois mil anos atrás pessoas brancas e européias se uniram numa sombria assembléia e decidiram maquiavelicamente que iriam oprimir qualquer um que não fosse como elas. O fato de eu ser avessa à essa visão do mundo, porém, não faz com que eu acredite que não haja vítimas, por exemplo. Há a parte prejudicada nessa equação e se eu esquecer disso, estarei sendo escrota. E nós não precisamos dizer à uma vítima que ela é culpada de ser vítima. Não temos nenhuma necessidade de dizer à uma classe inteira que a culpa de determinada opressão sobre elas é inteiramente delas.

Quando você diz que uma mulher é machista na mesma medida que homens são, ignorando completamente que só os homens se beneficiam do patriarcado, ao passo que mulheres estão procurando a aprovação masculina, você está dizendo que a culpa do patriarcado é dela. Quando você diz que homofóbico nada mais é do que gay enrustido que odeia gays que se assumiram, você está jogando a culpa de toda a homofobia em cima da própria classe homossexual e ignorando completamente a responsabilidade das pessoas heterossexuais que formulam leis anti-gays e expulsam seus filhos de casa por serem gays. Quando você tenta justificar seu racismo dizendo que não é um grande problema porque "problema mesmo é racismo de negro contra negro", você está removendo a responsabilidade das pessoas brancas [cuja classe historicamente escravizou e oprimiu pessoas negras] e jogando-a em cima das pessoas negras.

Não estou aqui querendo polarizar o mundo entre as vítimas coitadinhas que só estão reproduzindo o preconceito e caras malvados e perversos. Isso se trata de responsabilidade. É completamente injusto culpar as classes que foram oprimidas por séculos da nossa história dos seus próprios males em uma esfarrapada tentativa de se livrar da própria culpa. Dizer que os padrões de beleza só existem porque estilistas gays odeiam mulheres ou que mulheres só se arrumam loucamente para deixar outras mulheres, porque caras "nem se importam" com celulites e afins, é basicamente transferir responsabilidades que não deveriam ser transferidas. Apenas... parem.

Sim, mulheres reproduzem comportamentos machistas, sim, negros reproduzem comportamentos racistas, sim, sim e sim, porque nós não nos criamos em um vácuo. Nós refletimos os valores da sociedade, e nenhum de nós é imune à isso. Porém não lave suas próprias mãos para culpar classes desfavorecidas. Não se isente de sua responsabilidade, não finja que não ganha com esse sistema, não diga que o problema não é com você. Porque é.

Você também faz parte do problema. Não esqueça disso.

5) Lembrete número três: mulheres trans não podem ser misóginas.

Apenas: não.
Se você é uma pessoa feminista e concorda aqui comigo que mulheres não podem serem acusadas de "machismo" por alguns argumentos daqui e por mais outros [tenho certeza que você deve pensar nisso melhor que eu], então deve concordar que mulheres trans simplesmente não podem ser misóginas.
Porque são mulheres.

Se você discorda, então você não concorda que são mulheres.
E nós temos um problema aqui.

Vejo feministas identificadas como "feministas radicais" acusarem transfeminismo de lesbofobia e misoginia, e são as mesmas que dizem que mulheres não podem ser chamadas de machistas. Sempre as vejo argumentando contra páginas como Moça, você é machista e contrárias, por exemplo, à ressignificação do termo "vadia", entre outros. Nada contra essas opiniões. Absolutamente, eu concordo com diversos pontos. Mas as críticas ao transfeminismo por esses dois critérios esbarram nos fatos que são:

a) vocês consideram que mulheres não podem ser acusadas de serem machistas, assim como lésbicas não podem ser acusadas de lesbofobia, mas:
b) muitas pessoas integrantes do transfeminismo são mulheres e;
c) muitas dessas mulheres integrantes do transfeminismo são lésbicas, ou seja:
d) isso não faz dessa acusação uma grande contradição?

Mas tudo isso se resolve com a constatação de que:

a) vocês não reconhecem as mulheres integrantes do transfeminismo como mulheres [e, portanto, nem como lésbicas], e isso significa que:
b) vocês são transfóbicas, e:
c) se vocês querem criticar a corrente com base em lesbofobia/misoginia, vocês estão assumindo que são transfóbicas. Se vocês não querem admitir a transfobia, a crítica perde todo o seu sentido.
d) ou seja...?

Então, o resumo do post de hoje é basicamente:

a) Machismo não se trata apenas de ter uma opinião ruim sobre mulheres, mas de uma opressão estrutural que prejudica diretamente mulheres.
b) Não culpe as classes oprimidas por suas correntes, sendo que não foram elas que voluntariamente se algemaram.
c) Isso não é apenas sobre igualdade. [pensar mais criticamente sobre o que queremos dizer com "igualdade"]
d) Opressão é estrutural. É sistemático. Não seja uma pessoa patética assumindo que é oprimida por razões descabidas [aviso especial para o povo classe média da vida].

Obrigada pelo seu tempo gasto nessa leitura. Não sei se consegui manter minha coerência e meu ritmo do começo ao fim, mas acho que consegui me expressar mais ou menos como queria. Obviamente, eu não sou a dona absoluta da verdade e esse blog não tem nada de acadêmico, então nem pense que eu digo todas essas com respaldo teórico. Minhas opiniões são fundamentadas na minha vivência pessoal e nos conhecimentos que adquiro aqui e ali, e você não é obrigada a concordar com elas. Apenas não é.

Isso é só um blog, isso é só um texto meu.
Novamente, grata pelo seu tempo e paciência <3

Sexismo, racismo, capacitismo, homofobia, gordofobia, transfobia e "ódios no geral" [?] não são permitidos. Você será convidado a se retirar.
[fonte: achei no Pinterest]