Aviso: isso aqui foi feito como reflexões minhas no meio feminista. Não tolero gente de fora querendo desqualificar o movimento na base do "mimimi misandria" e justificando coisas esdrúxulas com base nisso. Tô nem aí pra suas lágrimas de machinho opressor. Minhas considerações sobre misandria são apenas algumas observações e incômodos pessoais meus, não sobre os seus sentimentos.
Primeiro que eu quero ressaltar: eu acho compreensível que uma mulher deteste homens. Vamos apenas botar a mão na consciência e lembrar que praticamente toda mulher tem uma história de terror envolvendo abusos e assédios e eles são cometidos por homens. Acho compreensível que uma mulher tenha horror à ideia de ficar sozinha com homens, odeie homens no geral, que sinta medo de homens. Não se retira o direito dela detestar homens por diversos motivos. Assim como não se retira o direito de pessoas transgêneras não quiserem se relacionar com pessoas cis por temer abusos e não se retira o direito de pessoas negras se reunirem em espaços seguros sem pessoas brancas ficarem insistindo que "não vêem cor". Toda e qualquer minoria tem direito de se resguardar e temer seu opressor e isso não deve ser questionado.
Definido esse ponto, então vamos para o que interessa: misandria, ao meu ver, tem o mesmo valor que heterofobia ou racismo reverso. Ou seja, não se sustenta como uma ideologia. É uma reação legítima e justificável, mas não é uma ~~ideologia~~ que deve ser tomada como uma pauta. O movimento LGBT não pode trabalhar com a heterofobia como um ideal. Assim como o movimento negro não pode trabalhar com racismo reverso. Me soa lógico que o feminismo não possa trabalhar com misandria como se ela fosse uma parte institucional do movimento. Mas por quê eu digo isso?
A misandria é basicamente ódio e aversão aos homens. Tornar isso como algo parte integrante do movimento, como uma de suas principais características ou, indo mais extremamente, tornar como um pilar ("eu sou feminista porque odeio homens", por exemplo) significa polarizar o mundo em uma divisão binária que é basicamente o homem oprimindo a mulher. Eu duvido muito que mulheres que declaram que são seriamente misândricas estejam pensando em pessoas não-binárias quando repetem esse discurso, realmente duvido. Acontece que eu vejo algumas falhas nessa lógica, por questões muito simples. A primeira delas é a óbvia falta de intersecionalidade.
Aqui vou dizer uma coisa que vai incomodar, incomodar pra cacete, mas acho importante dizer: querida, a opressão de homens em cima de mulheres não é a mais importante de todas. Não é mais importante falar de homens oprimindo mulheres do que pessoas brancas oprimindo negras ou então pessoas cis oprimindo pessoas trans. Então a misandria como algo a ser inserido no movimento como característica vai totalmente contra isso, porque faz pressupor que a opressão de uma classe é mais importante do que as outras. E não é. Cara, não é. Por quê seria? Isso aqui não é uma Olímpiada de Opressões. Não é como se houvesse uma classe mais oprimida. Mulheres e pessoas trans e negras e animais e com algum tipo de deficiência, todo mundo é fodido pelo sistema em algum grau. Então não vou entender se você chegar pra mim e falar "olha, sou feminista porque eu odeio todos os homens", porque vou te perguntar: todos?
Todos?
Todos os homens negros, trans, gays, bi, com deficiência, o caralho a quatro? Olha, tenho que ser sincera: como falei lá no começo, eu não me importo que você odeie toda e qualquer pessoa que se identifique como homem se isso é uma postura individual sua, só sua. Se isso é um trauma seu, sabe, não sou eu que vou apontar o dedo pra tua cara e te julgar porque cada um sabe da sua cruz. Mas eu acho extremamente inválido colocar isso como se ser misândrica fosse algo que uma feminista tenha que ser, porque considera que lutar por mulheres seja mais válido, mais legal, mais importante do que lutar pelas pessoas negras e foda-se o racismo que caras negros sofrem. Acho extremamente inválido considerar que todos os homens da face da terra sejam automaticamente 100% privilegiados em todas as áreas do universo, sem levar em conta que eles podem ter características específicas que os levem a sofrer outras opressões, como ser gay ou ser negro. É disso que falo quando aponto a falta de intersecionalidade: eu não vejo esse ponto debatido entre feministas que se autodenominam misândricas em níveis que não me soam como uma "brincadeira", mas como algo mais sério e profundo.
Mas, talvez, isso não seja debatido porque é "óbvio" que o homem odiado é o Sr. Combo de Privilégios: o branco, hetero, cisgênero, heterossexual, classe média, com todas as funções corporais perfeitamente habilitadas para viver em sociedade sem nenhum problema. Não vou nem me dar ao trabalho de defender essa classe: sério, não perco meu tempo. São poucas as vezes que você encontra um que resolva descer do seu ~~~pedestal~~~ e se dignar a ser decente. Mas vou aproveitar o gancho só para falar dos meus outros problemas de se considerar a misandria e aí eu tenho praticamente cem por cento de certeza que um monte de gente não vai gostar do meu ponto porque eu corro o risco de soar ~~~defensora dos homens coitadinhos~~~ o que não é a minha intenção, mas vamos lá.
O primeiro ponto: eu acredito que homens podem ser feministas. Eu entendo que várias feministas discordem de mim e elas tem as suas razões para isso, e tenho certeza que são razões legítimas e tudo o mais. Não me atrevo a desqualificar. Eu apenas tenho razões diferentes que me levam a acreditar que homens podem ser feministas, simplesmente porque eu acredito que qualquer pessoa pode ser feminista. Eu acredito que feminismo é um movimento pela libertação da mulher enquanto gênero, pela igualdade dos gêneros, pelo fim da misoginia e de tudo que subjuga o gênero feminino. Eu acredito que o feminismo é um movimento para empoderar as mulheres, sejam elas cis, trans, o caralho a quatro. Eu acredito nessas coisas, eu tenho que acreditar nessas coisas, porque senão - pra mim - não faz sentido ser feminista. Então, ao meu ver, qualquer pessoa - tendo ela um gênero binário ou não - pode se determinar como feminista por acreditar nessas coisas. Por acreditar em libertação, igualdade de direitos, respeito, empoderamento.
Eu vejo algumas feministas afirmando que homens não podem ser feministas porque um dia eles sempre jogarão seus privilégios na nossa cara. Porque um dia eles vão falar merda e a máscara vai cair. Eu tenho um ou dois pontos sobre isso:
O primeiro é que eu não acredito que pessoas são primariamente irreversíveis. Eu não acho que um homem, por ser homem, seja incapaz de aprender sobre privilégios, assim como não acredito que seja impossível para uma pessoa cis aprender sobre trans ou uma pessoa hetero aprender sobre pessoas não-heterossexuais. Sim, elas podem falar merda um dia qualquer. Sim, elas podem jogar seus privilégios na tua cara um dia qualquer. SIM, elas tem privilégios. Mas e aí? Eu posso e já falei muita merda na minha vida. Sou uma pessoa cheia de privilégios, já fui elitista, já disse merdas transfóbicas estilo "ela nasceu menino e virou menina", já achei que garotas eram tudo de ruim e que só homem prestava pra amizade, já deixei passar muita merda dita por outras pessoas achando que não era sério o suficiente, etc. E aí? Eu repensei todas essas atitudes. Ainda tenho muitas para repensar. Um homem não pode fazer o mesmo? É impossível à um homem rever as merdas que fala?
Se é possível para eu, como cisgênera, rever meus privilégios, porque não é possível para um homem fazer o mesmo? Ou cairemos novamente na Olímpiada das Opressões no qual uma é considerada primordial em relação às outras?
Uma vez vi uma pessoa falando que "homens nunca conseguirão se despir dos seus privilégios". Eu diria que, tecnicamente, é impossível você fazer isso. Enquanto você faz parte de uma classe privilegiada, bem, você vai continuar fazendo parte dela até que, sei lá, você deixe de fazer parte dela por motivos especiais e mágicos ou... essas classes sumirem. E enquanto você continuar fazendo parte dela, você vai receber os privilégios dela independente da sua vontade ou não. A pergunta é: você vai se aproveitar disso ou não?
Uma pessoa branca é branca. Ela não pode pintar a cara de preto e ~se abdicar~ de ser branca, por motivos de: é extremamente desrespeitoso, ofensivo e não iria resolver nada. Ela não pode virar uma pessoa negra. Ela pode pintar a cara dela o quanto for, ela nunca será uma pessoa negra. Ela não pode ~~~abrir mão~~~ de ser branca. Não adianta o que você faça, a menos que apareça os Padrinhos Mágicos, essa pessoa continuará tendo uma narrativa de pessoa branca que é completamente diferente da de uma pessoa negra. Mas isso não significa que está tudo acabado e que ela não pode fazer nada a respeito. Significa que ela, sendo pessoa branca, deve reconhecer que possui tais privilégios. Mesmo que ela não possa evitar ser melhor tratada em lojas, por exemplo, ainda assim pode e deve lutar apoiando pessoas negras. Deve ouvir suas vozes e compreender que deve se calar para ouvir melhor quem sempre teve a voz silenciada.
Uma pessoa com privilégios pode fazer muitas coisas para apoiar um movimento não-privilegiado e não precisa necessariamente se aproveitar deles. Um homem não vai conseguir se despir dos seus privilégios e continuar sendo um "homem sem privilégios", mas é capaz de ouvir e compreender, de desenvolver empatia e compreensão, enfim, de ser uma pessoa que pode apoiar outras. Eu preciso acreditar nisso: que qualquer pessoa pode apoiar outras sem estar necessariamente querendo lucrar em cima disso. Eu preciso.
No que isso se relaciona ao conceito de misandria? Lembrando que me refiro à misandria como se fosse uma pauta específica do movimento. Bem, se misandria se torna uma parte característica do movimento, suponho que não se possa incluir homens no feminismo como ~apoiadores~ (que é o papel máximo que se possa cumprir). Isso significa exclui-los do movimento até mesmo do papel de pessoas que apóiam e compreendem. E isso significa uma pergunta: QUAIS homens excluiremos? Que tipo de critério utilizaremos para salvar a intersecionalidade tão necessária no movimento? Ou apenas os Senhores Combos de Privilégio serão automaticamente excluídos? Hmm, eu não sei como responder à essa pergunta. Sério. Eu tenho certeza que desejar excluir essas determinadas pessoas do movimento é legítimo, mas eu - eu, particularmente eu - não vejo como algo nocivo que essas pessoas aprendam sobre o movimento. Isso não significa que eu quero abraçá-las e colocar uma coroa em suas cabeças por serem tão dignos, eu só acho que é legal que elas aprendam sobre isso. Acho legal que pessoas se identifiquem com o feminismo, sejam elas diretamente afetadas ou não.
Eu meio que não gostei de escrever esse texto, porque eu me sinto como se estivesse me indispondo com um monte de gente que se alinha politicamente à muito do que penso e eu realmente detesto apontar alguma coisa no feminismo que uma pessoa escrota possa pegar como argumento para desqualificar o movimento, então eu tentei ser menos assertiva e mais reflexiva. Vejam bem, eu quero ressaltar algumas coisas:
a) Eu não estou falando de aprovação masculina. Não estou sugerindo, nem por um segundo, que o movimento PRECISA de homens para que eles nos aprovem. Não disse isso, não quero passar essa interpretação, não concordo com isso;
b) Eu totalmente NÃO ESTOU falando de PROTAGONISMO. Estou presumindo que seja óbvio ululante que o protagonismo do feminismo pertença somente à mulher. Estou falando do papel de apoio. Eu sei que repeti muitas vezes durante o texto, mas quero reforçar isso até ficar chato, só para garantir que não seja mal-interpretada.
c) Eu sou 100% a favor de espaços seguros. O quer dizer que, sim, apóio grupos inteiramente voltados para mulheres cis e trans, mulheres trans, mulheres negras, mulheres com deficiências, mulheres mães, etc. Eu apóio que esses grupos específicos sejam segregados, voltados exclusivamente para as necessidades daquelas pessoas que precisam se sentirem acolhidas entre seus iguais e compartilhar suas experiências sem ser ouvida por uma pessoa pertencente à classe opressora (mesmo que a pessoa, em questão, não tenha feito nada contra ela). Eu acho importante esses espaços seguros para dividir vivências e se empoderar. Não questiono isso e não é disso que estou falando. Estou falando do feminismo como um todo ou, pelo menos, de algumas de suas correntes.
d) Esse texto é apenas minha opinião, um desabafo pessoal, formada a partir de observar diversas outras feministas e suas relações com "misandria". Não significa que seja definitiva, porque ainda estou pensando no assunto. Eu não sou contra a misandria em si, assim como não sou contra heterofobia ou racismo reverso. Porque eu sei que é uma piada interna, é uma piada que nos permite tirar onda de quem nos oprime. Eu fiz esse texto porque eu observei que misandria estava se tornando algo mais forte do que apenas uma piada, como se fosse algo que motiva a pessoa ao feminismo, e embora eu não tenha nada a ver com os motivos pessoais de cada pessoa ser feminista, eu me senti deslocada porque misandria não me abrange politicamente. Eu não me sinto acolhida pelo feminismo com essa característica impregnada no movimento. Tenho que ser sincera quanto à isso: o feminismo que se basear em misandria não me representa.
E isso é tudo, acredito eu.
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só para lembrar o aviso do começo do post. |