sábado, 6 de dezembro de 2014

você realmente queria estar morta?

esse texto foi escrito depois de conversar a respeito com algumas amigas que estavam problematizando a expressão. muito do que digo aqui é ouvindo elas, antes de tudo.
aviso de conteúdo: suicídio. pode ser que você não se sinta bem com as estatísticas ou algo assim. por favor, nesse caso, observe essa maravilhosa lista de gifs de filhotes em vez de ler um texto sobre algo tão horrível. sério.
ressalva: esse texto não foi feito para quem responde "sim" à pergunta do título. esse texto foi feito para quem brinca com o assunto e se serve do meme como uma piada, não como um meio de expressar sua vontade sem sofrer represálias. malu observou esse detalhe e ele é importante porque, veja bem, muitas pessoas TEM essa vontade e elas querem falar a respeito. e é importante que elas falem, de verdade.

mas esse texto, especificamente, é feito pra censurar pessoas que não fazem ideias do que seja "sentir vontade de estar morta" banalizando a expressão simplesmente porque "é uma piada". tudo bem?  
Todo mundo sabe que a internet vive de memes e menes (nunca soube a diferença) e que se alimenta deles enquanto eles continuarem "engraçados" ou "válidos". É o caso de "até a Luiza no Canadá", "tomando meus bons drinks" e, um dos mais recentes, "queria estar morta" e "que morte horrível".

Okay.
Quando foi que brincar com "queria estar morta" se tornou tão engraçado?

O Brasil é o oitavo país com mais casos de suicídio do mundo, segundo a OMS, e o quarto maior em crescimento — o que quer dizer que as perspectivas são muito, muito sombrias. A cada quarenta segundos, uma pessoa retira a própria vida no mundo, e suicídio é a segunda causa de morte mais comum para a morte de pessoas entre 15 e 29 anos. Aliás, entre 2000 e 2012, o percentual de pessoas entre 10 a 14 anos que se mataram foi de um aumento de 40%. Entre 15 e 19 anos, foi de 33,5%.

O meme continua engraçadinho para você? 

O desejo de morrer — ou melhor dizendo, de não existir mais, de não ter que lidar com outro dia, de simplesmente apagar e não acordar nunca mais — é um sintoma recorrente e bastante significativo da depressão. Mais de 350 milhões de pessoas no mundo tem depressão, segundo a OMS, e isso é gente PRA CARALHO. Ao que tudo aponta, depressão se tornará (se é que já não é) a doença mais comum da atualidade. Lembram quando tuberculose era o mal do século e os poetas romantizavam em cima da tosse com sangue por suas amadas? Pois bem. 

"Nossa, mas isso se resolve tomando vergonha na cara"

Não.

"Nossa, mas isso é frescura"

Não.

"Nossa, mas você só tem que olhar o lado positivo da vida"

Por favor, não.

Depressão é a segunda maior causa de ausência no trabalho, perdendo apenas para dores nas costas, e é um dos maiores motivadores para a concretização do suicídio. A pessoa sente que até mesmo se levantar da cama é um peso enorme e horrível, e se sente culpada por simplesmente não conseguir levar a vida como todo mundo. A doença pode se manifestar de diferentes formas nas mais diversas formas, mas o desejo de simplesmente não ter mais que viver vai estar lá. E é um desejo real, muito real. 

Quando você diz que "queria estar morta" de uma forma engraçadinha, porque zoeira never ends, não é mesmo?, eu vou te dizer o que acontece:

— as pessoas que desejam, efetivamente, o suicídio se sentem inibidas a se expressarem, pois elas sentem que não serão levadas a sério, mas apenas como uma piada, apenas uma propagação do mene tããããão engraçado e, consequentemente, se retraem (o que significa que elas estarão sujeitas à verem sua doença se agravando cada vez mais);

— e as pessoas que tentam expressar sua vontade em morrer mesmo assim não são levadas a sério.

Quero dizer:
a doença já é considerada "frescura" por uma pá de gente. E vocês vão lá e colaboram para o quadro piorar. Ao se servir de um mene por ser tão "engraçadinho", vocês colaboram para que a dor de diversas pessoas seja minimizada e se transforme na sua nova piada do dia. Então a pessoa, como ela não vai conseguir chamar atenção para a sua dor falando, porque, olha só, ninguém está prestando atenção nela, então vai ter que usar outros meios — e, bem, o suicídio, quando acontece, dói, não é mesmo?

E então todo mundo pára, lamenta e fica "mas era tão jovem!". "Tinha tudo na vida". "Se matou porque foi fraca". E por aí vai. Não contribua para isso, sério. Se você não deseja morrer, não transforme isso para se realizar enquanto humorista. Não transforme a doença dos outros em uma piada grosseira para justificar um dia ruim. Simplesmente, sério, não faça isso.

Isso é sério, muito sério, e pessoas morrem todos os anos porque elas não suportaram. E muitas delas simplesmente nunca tiveram todo o apoio e a compreensão necessários. Além disso, muitas pessoas avisam que pretendem se matar, muitas delas cogitam isso em voz alta — e não são levadas a sério. Nós temos essa crença de quem quer realmente se matar não avisa, apenas vai lá e tenta, e isso é mentira. E é triste que quando uma pessoa verbalize esse sentimento, a maioria das pessoas simplesmente vai entender que ela está propagando um meme como a internet inteira faz e não dá a atenção necessária. Essas pessoas precisam de ajuda, mas uma piada de internet não vai ajudá-las nisso.

O meme continua tão engraçadinho assim para você?
Espero que não.


outros links:

obs.: acabei não trabalhando isso durante o texto, mas aquelas páginas de 'X da Depressão' são igualmente escrotas, okay? Não é engraçado transformar a doença em motivo de piada para fazer páginas com alto teor humorístico. Vocês podem fazer melhor que isso.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

9 observações sobre feminismo +1 sobre unicórnios (aka bissexuais).

eu sei que estou ausente há séculos, mas cá estou eu me revirando no meu túmulo e retornando de pouco em pouco. só para dizer algumas verdades que não mudaram nesse um ano e meio de blogzinho da rainha aqui (sim, rainha sim, olha a url do blog, faz favor). vamos prestar atenção na vossa majestade:

01) Mulher transgênera é mulher sim.

E o choro é livre.

02) "Mas agora a gente não pode mais falar de buceta!!!!111"

Pode sim. Ninguém está impedindo.
Só não falem de vaginas como se fosse um pré-requisito pra ser mulher, porque não é. Façam o mimimi que quiserem, mas não é. Falar de direitos reprodutivos é importante sim, falar de anticoncepcionais, ciclos menstruais e empoderar a vagina em si como algo ok é muito, muito importante. Mas também é igualmente importante lembrar que nós somos mais que órgãos reprodutores e/ou sexuais. Obrigada.

03) "Esse transativismo está dividindo o movimento, fazendo as mulheres bloquearem uma a outra no fb"

Eu deleto todo mundo que é chato do meu fb.
Não somos nenhuma seita maligna.
Se você está fora do meu fb, provavelmente é porque você é boring e não quero mais ver a sua cara na minha página. Só isso.

04) Bissexualidade existe.

E está por aí, existindo e sendo linda e maravilhosa em rosa, roxo e um milhão de outras cores. Superem isso. A vida continua.

05) Dizer para uma mulher que ela dorme com seu opressor é péssimo.

Sério. Vocês conseguem maneiras mais gentis de explicar para uma mulher sobre a imposição da heternormatividade e a nomeação do homem como uma classe opressora. Vocês conseguem algo melhor do que fazer essas mulheres se sentirem mal por serem heterossexuais.

06) O protagonismo do feminismo é das mulheres. O movimento é pelas mulheres.

E isso é um ponto básico. Se você é um cara e acha que isso é um enorme problema, bem, volte dez casas e aprenda a história básica do movimento. Se mesmo assim acha que está sendo um problema, então dê o fora. A gente já tem problemas o bastante sem precisar de caras cheios de boas intenções que mais desvia o foco do que qualquer outra coisa. De boas intenções o inferno está cheio.

07) Espaços seguros são essenciais. Para todo mundo.

Uma feminista falar que concorda com homens feministas não quer dizer que ela seja contra espaços seguros. Todos os segmentos necessitam de coletivos, grupos online, etc. para se articularem e se protegerem e isso não inclui apenas mulheres, mas mulheres transgêneras, negras, mães, com deficiência, muçulmanas, etc. Isso é realmente um ponto muito, muito básico. 

08) Mas a gente não ganha nada se dialogarmos só entre nós.

Sim, é mais confortável conversar sobre teoria feminista com as suas amigas. Mas você não muda mundo algum quando você se mantém na sua zona de conforto por toda sua vida. Às vezes vale a pena tentar conversar com alguém de fora e talvez seja legal conversar com as suas amigas para articular algo que promova maior conscientização de outras pessoas.

09) Teoria é legal, mas a prática é tão fundamental quanto.

E ninguém é menos feminista só porque nunca leu Simone. Fica a dica.

10) E, menos. Bem menos.

O feminismo não é só seu, a condição de ser mulher também não e tem um monte de experiência que você nunca viveu e da qual não pode falar a respeito. Seja mais humilde, ouça mais suas coleguinhas — travestis, negras, prostitutas, com deficiência, etc. — e entenda que existe mil formas de ser feminista e um milhão de formas de ser mulher, e nenhuma delas é ilegítima. 

E está tudo bem.
Sério.

domingo, 8 de junho de 2014

cabou seriedade,

no momento que decidi usar esse graphic do unicórnio e mudar o layout do blog para essa coisa que parece ter saído do Adventure's Time.

e não me arrependo
nem um pouco.

bjs.

sábado, 26 de abril de 2014

repilot


Eu sei que faz muito tempo que não venho aqui. Não sei por quê. Na verdade, eu sei.

Eu me sinto cansada.

Não sei exatamente para onde eu deveria guiar esse blog. Sinto orgulho de ter textos aqui que eu mesma releio e eu não mudaria uma única vírgula. Sinto um prazer enorme ao ter visto tantas pessoas compartilharem tais posts entre eles e assinando embaixo e, sim, eu sou egocêntrica e amo ver pessoas concordando comigo. Mas chega a um ponto que eu não sei se eu estou certa. Eu não acho mais que estou acertando. Não sei.

Eu não estou fechando nada. Nem quero. Esse blog ainda me traduz. Tenho vontade de voltar a escrever como fazia e eu gosto de dedicar máxima atenção para cada post. Eu adoraria que vocês tivessem um blog atualizada três vezes por semana ou até mesmo todos os dias, como os blogs favoritos de vocês, mas eu considero isso inviável. Eu mesma não tenho energia para isso, não tenho assunto, não tenho o menor saco. Me perdoem, porque vocês merecem mais que isso. Vocês merecem os comentários respondidos em poucas horas. Vocês merecem uma resposta mais imediata. Vocês merecem mais interesse do que eu posso dar.

Estou só sendo sincera.

Escrever para esse blog não é exatamente divertido. Os assuntos costumam ser racismo, transfobia, misoginia. Não são temas divertidos. Eu estou cheia de raiva e eu preciso liberá-los. Eu estou furiosa e chateada com vocês, e eu quero dizer isso em algum lugar que seja meu. Mas eu não consigo mais me sentir furiosa com vocês. Eu só me sinto desapontada, porque eu realmente odeio perceber que não adianta.

Não adianta. Vocês irão cometer os mesmos erros e eu falarei as mesmas coisas e simplesmente não vai acabar. É um ciclo que continua e continua e continua e, sério, isso me frustra. 

Passei esses últimos meses fazendo coisas divertidas. Jogando RPG. Viajei para o Rio. Vi séries em ritmo compulsivo. Me entupi de comida. Terminei um período de faculdade e comecei outro. Eu fiz isso pela minha saúde mental. Ninguém merece sentar no pc e ler as merdas que me motivam a fazer cada post que fiz nesse blog. Ninguém merece saber que eu, Luna, 20 anos, sou privilegiada pra caramba e se eu já me sinto sufocada, imagina quem não tem os mesmos privilégios que eu. Ninguém merece lidar com gentinha que curte Danilo Gentili e Felipe Neto. Ninguém merece.

Eu não mereço.

E eu quero que esse blog seja um refúgio. Quero que seja um lugar agradável de se estar. Porém é onde descarrego minha raiva e minha frustração para com o mundo. Soa coerente? Soa coerente que eu faça de um lugar que eu pretendia que fosse bonito e confortável o meu espaço pessoal de fúria com a transfobia dentro do feminismo ou misoginia em todos os espaços possíveis? Eu não sei. Eu não sei como vocês se sentem a respeito. Só sei que sentem saudades dos meus textos e, bem, eu também.

São apenas reflexões. Eu gostaria de relembrar novamente que embora esse blog pertença à uma leonina com mercúrio em leão, o que quer dizer algo sobre como eu pareço uma tirânica enquanto dou as minhas opiniões, isso ainda não faz de mim a rainha do universo e eu não odeio quem pensa diferente de mim. Tem muitos posts, por exemplo, que já mudei de ideia 2145987 vezes (o caso campeão é sobre se podemos chamar mulheres de machistas ou não). Tem casos que eu não sei o que pensar. Tem casos que estou cansada demais para pensar. 

Esse é, talvez, o meu texto mais pessoal aqui. Eu me incomodo em escrever sobre eu mesma, porque me sinto exposta. Mas eu preciso aprender a fazer isso, porque se eu quero ser artista, eu preciso aprender a me expor. Então vamos lá. Um passo por vez.

E, de coração, eu agradeço a todos vocês.
Pelo apoio, pelo carinho, pelas críticas, comentários e compartilhamentos nesse um ano e quatro meses. E isso não é o fim.

É apenas o começo de uma outra era que eu ainda não decidi como será (\\^o^//)