sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O que fazer quando estuprador ganha voz em espaço feminista ♥

MEUS SENTIMENTOS NESSE MOMENTO. (agradecimentos especiais pra Enya por achar o gif pra mim)

Eu fiquei completamente sem palavras ao ler esse recente post de Lola.

Quer dizer, ela já havia dito muita merda, mas dar voz ao estuprador foi inusitado. Me causou mal-estar. Me fez mal ler aquelas palavras, ler aquela confissão do estuprador e ler o texto praticamente perdoando o cara escrito por Lola, dizendo que ele também era vítima e, pior, chamando as feministas que queiram punir estupradores a todo custo de reaças. Sim, Lola, foi o que você disse. "Que reaças queiram punir a todo custo, eu entendo. São reaças." você disse e então "Mas, pra mim, feminista não pode ser reacionária". Cagando regra em cima do feminismo. Dizendo como eu e tantas outras deveríamos pensar sobre punições e reabilitações dos nossos agressores. Aqui não é o momento de você discutir reabilitação, Lola. Eu compreendo que estupradores não são monstros, mas homens que aprenderam que mulheres são menos que gente, sendo perfeitamente autorizados a tratá-las de maneira perversa. Mas seu blog era para ser um lugar seguro.

Um lugar que nenhuma mulher teria que ler um texto escrito por um estuprador se fazendo de arrependido, contando suas histórias, amargurado pela culpa.
Isso que se chama lugar seguro dentro do feminismo: um lugar que agressores não tem voz. E você foi lá e permitiu que ele tivesse voz.

O quão mais baixo você pode descer?

Eu não quero falar, porém, que você não tem esse direito. O blog é seu. Você pode falar absolutamente de qualquer coisa. Se você quiser falar de gatinhos fofos, feminismo radical ou da última treta entre Femen e resto do mundo, você tem todo o direito. Mas eu, como uma pessoa que viu no seu blog uma das portas de entrada para conceitos feministas, quero te falar uma ou duas coisas. 

A primeira delas é sobre empatia.

Lola, você estava perfeitamente ciente de que esse post poderia provocar mal-estar entre diversas mulheres. Você mesma declarou que não gostaria de receber um pedido de desculpas de um estuprador seu. Então, de que modo, você achou que fazer o mesmo com essas vítimas era legal? O que passava na sua cabeça quando você decidiu postar assim mesmo, esse post que é simplesmente um TRIGGERING tão gigante até mesmo para quem nunca sofreu abuso sexual? Considerando que seu blog é simplesmente um dos maiores portais feministas brasileiros (como eu gostaria que não fosse!) e considerando a quantidade extraordinária de pessoas que são introduzidas ao feminismo através dos seus textos, como você acha que essas pessoas vão conseguir lidar com esse espaço que o estuprador teve para se arrepender?

Você é uma feminista. Você é entrevistada e tudo o mais. Dá palestras. No entanto, parece que você se esqueceu que estupradores já possuem sua voz em todos os lugares. Nas escolas, nas novelas, nas esferas políticas, em absolutamente todo lugar: os nossos agressores são pais, professores, políticos, médicos e exercem seu poder livremente. Você sabe perfeitamente bem que ao passo que a sociedade inteira legitima o discurso que silencia as vítimas, dizendo à elas que são culpadas das agressões que sofreram, então elas não tem onde recorrer. É para isso que temos os blogs feministas, grupos privados no facebook, listas de e-mails. Para que sejam espaços seguros. Meu blog é um espaço seguro. As pessoas amigas minhas que lêem meu blog são, geralmente mulheres que vivenciaram opressões de modos diferentes: por serem bi/pansexuais ou lésbicas, por serem negras, por serem trans, por serem tantas coisas diferentes. Eu preciso que meu blog seja lugar seguro para elas. Tomo cuidado para isso. Você não tem o mesmo cuidado. No momento que você publicou esse texto, sendo um prolongamento da sociedade, o seu blog já não é mais lugar seguro para mulher alguma.

Mas, na verdade, ele nunca foi, não é mesmo, Lola?

O que eu devo pensar de uma feminista que deliberadamente e conscientemente publicou um guest post que causa tamanho mal-estar entre mulheres? O que eu devo pensar de uma feminista que disse que "quer saber dos dois lados" quando é informada de uma agressão que ocorreu na Marcha das Vadias? Lola, você não é a Justiça. É óbvio que todos são inocentes até que se prove o contrário, e é óbvio que diante da Justiça, todos devem provar seus argumentos. Mas você é uma feminista e feministas nunca deveriam duvidar da palavra da vítima. Esse é um dos princípios básicos: acreditar na vítima e defendê-la, porque o mundo inteiro já está pronto para acusá-la.

Você não fez isso, não é?
Sororidade, aqui, está servindo à quem, Lola? Essa tal sororidade que as feministas tanto amam, tanto pregam, tanto querem: ela está servindo à mim? Me declarar contra você é não exercer esse princípio maravilhoso que é para unir mulheres? Que mulheres unidas são essas, Lola? Você é uma delas? Eu não quero me unir à você.

Vejo seu blog há tantos anos que mal consigo me lembrar do ponto de partida. Recordo-me de como te admirava e de como eu considerava você o máximo. Eu clicava em absolutamente todos os links para seus próprios textos que você inseria dentro dos seus posts - é engraçado que hoje eu enxergo neles um pouco de autopromoção, mas nada contra. Todo mundo tem direito de se autopromover o quanto quiser. É engraçado como eu não percebia o quanto seu feminismo era amável e gracioso, o feminismo da mulher branca e classe média, o feminismo da mulher que teve todos os privilégios do mundo exceto ser mulher e é exatamente o tipo de feminismo que eu nunca tive o luxo de ter. O objetivo do seu feminismo, Lola, é "conquistar corações e mentes". O objetivo do meu feminismo é libertar mulheres de suas opressões. E libertá-las não significa que eu queira conquistar corações e mentes, que você disse em seu estúpido post sobre a quebra das santas católicas.

O seu feminismo, Lola, não te permite reconhecer que recomendou uma teórica transfóbica. O seu feminismo não te deixou perceber a transfobia que ocorre nos seus comentários, transfobia essa que merece mil avisos de triggering. O seu feminismo não te impediu de ser escrota nessa ocasião e eu dou nomes aos bois: cê foi escrota, cê foi conivente com a transfobia e, nessa, cê perdeu toda a minha admiração. Mas não vou tirar sua carteirinha não. Eu não sou reaça. Eu não sou uma hater sua. Não sou troll nem mascu, eu apenas discordo de você e de todas essas suas opiniões. Mas você vai me classificar de uma dessas coisas se chegar a ler isso aqui, não vai?

Então encara tua responsabilidade. Você fez merda. Faltou empatia. Nós esperávamos empatia de VOCÊ, porque você se diz feminista, porque você é uma mulher, porque você diz aos quatro cantos que sempre devemos defender a vítima, mas tu foi lá e acolheu o estuprador como mamãezinha. Não diga que não fez isso, porque foi isso que as meninas sentiram. Em todos os grupos de feminismo que participo, todas tiveram exatamente a mesma. fucking. sensação: o acolhimento do estuprador.

E considerando que abuso é algo comum pra caralho, então a quantidade de meninas que eu vi comentando sobre o quão horriveis se sentiram, recordando-se de suas agressões, perguntando-se sobre seus agressores, não foi brincadeira. Tu não é espaço seguro pra ninguém.

Eu apenas lamento por todas essas pessoas que são introduzidas ao feminismo através de você atualmente. Apenas lamento porque elas verão uma feminista que deu espaço para um estuprador se arrepender, uma feminista que resolveu abrir espaço para a amiga médica que criticou a vinda dos cubanos com base em argumentos bem classe-média-sofre, uma feminista que permitiu que a transfobia acontecesse nos comentários, uma feminista que ignora convenientemente todas as pessoas que a critiquem. Já te falaram que você estava fazendo um deserviço ao feminismo anteriormente e eu discordei na época. Não compartilhei essa opinião. Mas, agora, eu acho isso. Eu acho esse post específico um enorme deserviço ao feminismo.

O que seria o deserviço ao feminismo? Bem, eu considero deserviço ao feminismo qualquer situação que atinja as mulheres e/ou feministas de forma negativa. Isso significa que quando Caitilin Moran diz que "não dá a mínima para questões raciais" (você lembra disso? Porque você disse que era "grosseria". Como se o racismo institucional pudesse ser chamado apenas de grosseria!), ela está fazendo um deserviço ao feminismo porque - como feminista branca - está praticamente afirmando que não se importa com as mulheres negras e marginalizadas. As Femen fazem um deserviço ao feminismo, não por protestarem seminuas, mas por não conseguirem formular um único pensamento político coerente, especialmente aqui no Brasil. E quando uma feminista prefere abrir espaço para um homem - e não qualquer homem, mas um homem que estuprou duas pessoas - em detrimento dos sentimentos de suas próprias leitoras que já passaram por abusos, ela está fazendo um deserviço ao feminismo.

O meu feminismo se trata de empatia. De solidariedade. De acolher as vítimas, primeiro, de empoderá-las simultaneamente. É óbvio que devemos educar os agressores, mas - veja bem - minha prioridade sempre vai ser o bem-estar das minorias oprimidas. Se um texto que eu publicar na internet fizer minhas amigas se sentirem mal, é minha responsabilidade. E é dever meu retirá-lo imediatamente e pedir desculpas, porque minhas amigas não precisam de mim para se sentirem mal: os comentários no G1, a novela das 8, o mundo inteiro já faz isso. O meu blog é refúgio, Lola, e o seu também deveria ser. Mas se seu blog feminista tão grande deixa de ser refúgio, o que acontecerão com suas leitoras machucadas?

Meu feminismo também se trata de raiva. Não sou feminista porque "mulher tem que ganhar o mesmo salário que homem". Eu sou feminista porque tenho ódio de como as mulheres são tratadas. Eu sou feminista porque eu odeio ver como os mecanismos de opressão são tão perversos que praticamente nos fazem amá-los. Eu tenho ódio porque misoginia caminha lado a lado com homofobia, racismo, transfobia, especismo e tantas outras coisas que é praticamente impossível desarticular as causas. Eu tenho ódio porque eu sei que por mais que eu tente me libertar, ainda assim estarei oprimindo alguém e enquanto estiver oprimindo alguém, de nada adiantará meu feminismo. E eu tenho ódio, ódio de ver estupradores sendo "supostos" em todas as notícias e inocentados em seus julgamentos. E então eu os vejo em seu espaço. O que deveríamos pensar?

Você desapontou tuas irmãzinhas, moça.

É engraçado pensar que dentro do feminismo existe esse conceito, a sororidade, e ele sempre é usado para impedir que feministas sejam criticadas por feministas. Mas sabe de uma? Eu jogo essa merda toda no ventilador e em público. Se mascus vão ler isso e vão amar? Paciência. Se as feministas em geral vão ler isso e me odiar por fazer das nossas tretas algo público? PACIÊNCIA. Feminismo não é um movimento perfeito e homogêneo, feminismo não é um produto para ser vendido, feminismo não é uma seita para ser pregada de porta em porta, feminismo não é para ter assessoria de marketing para dar uma arrumada no visual e torná-lo agradável pro mundo. Feminismo é plural e cada mulher tem direito de ser feminista à sua maneira, com tuas prioridades únidas. Feminismo não é para ser limpo e esterilizado. Feminismo não é sobre você ou sobre eu: é sobre mulheres, sobre muitas mulheres, e é sobre empoderá-las. É sobre elas acreditarem em si próprias. É sobre elas serem negras, pobres, latinas, trans*, queer, lésbicas, bissexuais, pansexuais, tudo o que elas forem ou quiserem ser e é sobre elas perceberem que são gente.

Eu não me importo de fazer das minhas tretas públicas. Não me importo de brigar publicamente com outras feministas. Não estou nem aí se um masculinista pode pegar isso para deturpar o movimento: ele já faria isso de qualquer jeito. Não te criticar com receio de que as pessoas considerem o feminismo um movimento duvidoso não me serviria de nada, porque as pessoas já acham feminismo um movimento duvidoso. Eu prefiro ser absolutamente honesta e que qualquer pessoa saiba perfeitamente com quem eu fecho.

Eu fecho com mulheres, Lola. Independente se elas perdoam seus agressores ou se querem a cabeça deles em uma bandeja.
Mas eu fecho com elas sempre.

Você... eu não sei com quem você fecha. Talvez você só feche com você mesma, querida Lola.

"Não deixe eles te dizerem que você não está autorizadx a sentir raiva" (fonte: fuckyeahsubversivekawaii)

5 comentários:

  1. O post da Lola foi horrível. Horrível por passar a mão na cabeça do estuprador - e ela sabe que está fazendo isso.

    Horrível porque faltou com toda a empatia que ela deveria ter com todas as pessoas que já sofreram abuso.

    Horrível porque eu não consigo deixar de ver esse post como autopromoção de uma feminista que é tão boazinha que "perdoa os estupradores".

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    1. Quase dez dias depois, eu venho aqui e tudo o que consigo pensar é lhe enviar esse gif:

      http://25.media.tumblr.com/tumblr_mch8reoCEO1rdcdlqo1_400.gif

      Eu conheço esse sentimento e não tenho palavras pra conseguir descrevê-lo :(

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  2. eu nunca li o blog da lola, talvez um ou dois posts na época da briga com o marcelo tas, mas nem dei muita atenção. ainda sou uma curiosa apenas, mas acho que o feminismo é isso mesmo que você falou, é sobre dar voz às minorias repreendidas. e sempre tive a ideia de que, se na grande mídia não dão espaço a elas, não são nos blogs mais visados que isso vai acontecer também. mesmo que "de esquerda". eles nunca vão chegar tão perto da realidade como os blogs "underground", e por isso nunca dei muita atenção a ela.
    de qualquer forma, não sei como reagir ao post. ela claramente foi imparcial e ele, mesmo que tenha repetido vezes e vezes "sei que não sou a vítima", se coloca na posição sim. se ele não se achasse a vítima, teria tentado pagar pelo que fez, seja se entregando a polícia (não que eu ache que fosse fazer muita diferença), seja se desculpando de alguma forma... e tipo, nem falou como as vítimas parecem se sentir. só ficar sem dormir não é nada, imagino que as vítimas passem pelo mesmo, mas ele como agressor não deveria simplesmente ter o mesmo castigo... não é questão de ser reaça ou não, como vc disse, apenas, como estudante de direito, afirmo: quem desrespeita a regra não pode ser tratado da mesma forma que o que não o fez. senão, nada tem sentido.
    ótimo post como sempre viu luna, eu sempre dou uma olhada aqui e quero fazer um comentário gigante como esse, mas né, é a vida... hahahaha
    beijos linda

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  3. ah sim, e como cafeina falou: ela faltou com a empatia. ela certamente sabia que algumas pessoas iriam se indignar e, ao invés de explicar sua atitude humildemente, ela simplesmente quis dizer que o blog era dela, haters gonna hate, mimimi veja o sofrimento do coitado senao vc é reaça. que tosca.

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  4. Fiz-te algus questionamentos no post Sororidade 101 e já encontrei algumas respostas aqui.

    Eu sou uma dessas pessoas que foram "introduzidas" ao feminismo no blog da Lola. Não sou acompanhante assídua, sempre busquei por textos com algum assunto específico, e portanto não me deparei com esse post (ainda bem, porque ânsia de vômito só de pensar). Ainda hoje, soube do episódio dos comentários transfóbicos (li todos) e fiquei chocada com a estupidez dita por algumas mulheres e com o pouco caso dado pela Lola.

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Se você for amor, tome um chá, sente no sofá, tire uma soneca, fique à vontade que a casa é tua. Se você não for amor, inclusive sendo homofóbico, misógino, transfóbico, racista, etc., eu excluirei sua postagem. Sim, porque aqui é ditadura da minoria e as pessoas que me amam e/ou me lêem não são obrigadas a lerem sua merda. Então pense duas vezes :)