quarta-feira, 6 de março de 2013

às vezes desistir é uma opção

Há algum tempo atrás, eu li 3096 Dias, que conta a história real de Natascha Kampusch, austríaca sequestrada aos dez anos e conseguiu fugir aos oito. O livro me impressionou não pelas circunstâncias do sequestro e sobre como uma pessoa pode ser tão cruel, mas pela maneira como Natascha era franca e muito honesta sobre a ligação psicológica que existiu entre ela e o seu sequestrador. Mesmo ele tendo cometido um crime, mesmo ele tendo a agredido psicologicamente e fisicamente, mesmo ele tendo chegado ao ponto de tentar sufocar a sua identidade, ainda assim ela estabeleceu uma relação com ele no qual ele não o odiava. Porque o ódio a mataria. Então ela o perdoou. A cada agressão, ela o perdoava. Por mais ferida e machucada que estivesse, ela o perdoava. Era uma estratégia para a própria sobrevivência, não porque ela fosse uma boa samaritana. Porém ela teve ocasiões de fugir diversas vezes. E não fugiu.

O motivo era simples, mas difícil de entender: a certa altura, o seu cativeiro não era mais físico, e sim psicológico.

Eu acho interessante quando ela fala sobre isso no livro, porque me faz ver que ela não é exceção. Muito pelo contrário: nós costumamos pensar que somos livres, mas existem dentro de nós certos monstros e correntes que nos prendem muito mais do que supomos. E então perdoamos constantemente a quem nos agride, nos culpando eventualmente, lembrando que são nossos pais e amigos, nossos namorados e conhecidos. E a pior parte é que nós damos essa permissão para que essas pessoas sejam como o sequestrador de Natascha. Nós temos esse vínculo. Nós guardamos os bons momentos, os sorrisos, as gentilezas. Toleramos os insultos. E assim esticamos os nossos limites até o máximo, enquanto der, enquanto for suportável.

Isso não é tão cruel? Que haja pessoas e pessoas e que boa parte delas tem dependência psicológica uma da outra tão forte que mal conseguem se libertar? Que haja pessoas que saibam disso e apenas querem manter o controle? Que haja pessoas que reconhecem esse controle, mas resolvam se submeter ainda assim porque se sente culpado demais para se livrar disso? Que toda essa merda acontece todos os dias, perto demais de nós para que possamos fingir ignorar? E então você tenta não ignorar. Você, acreditando que é apenas uma questão de ajuda, tenta realmente dar a sua visão como alguém de fora. Desista. Não adianta. Toda a sua lógica vai cair em ouvidos surdos. Sente e espere, e observe como as pessoas trilham a própria derrota, e nem sequer se dão conta disso. Não que você esteja certo. Claro que não. Nem sempre a situação está dividida entre extremos opostos, preto e branco, bem e mal. Há amor e há ciúmes, há ódio e há gratidão. Há dívidas a serem pagas e há mágoas nunca resolvidas. E por mais que você ame alguém, você não pode tentar salvar esse alguém, especialmente quando ele não quer ser salvo.

Você não pode lutar contra todo mundo. Às vezes as coisas estão fora do seu controle.
Às vezes esse alguém que precisa fugir por si mesmo. Como Natascha. Ela precisou de oito anos para fugir do seu sequestrador. É o tempo de uma criança brasileira aprender a ler no começo, e no final começar a fase pré-vestibular (1ª à 8ª série, na antiga grade). Então não adianta muita coisa. Às vezes você apenas precisa desistir.

Então.
Parabéns pela vitória.

2 comentários:

  1. Seu texto me fez lembrar uma situação muito delicada... E é exatamente isso, nós não temos como salvar alguém que na verdade não quer, ou não está pronto para, ser salvo.
    Ótimo o seu blog!
    Beijos

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    Respostas
    1. Obrigada pelo elogio ao blog! ^-^

      E a situação terminou bem? Eu espero que sim :33

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