sábado, 2 de março de 2013

O seu feminismo não me representa

Caitlin Moran, autora de How To Be a Women (resenha aqui)
Esses dias rolou uma treta entre as feministas por conta de questões raciais. Não adentrando os detalhes porque eu mesma não conheço (e aqui tem o post da Malu, lindíssima, explicando melhor a participação de outras pessoas) mas focando-se na questão de Caitlin Moran que declarou que "não dá a mínima para isso" quando alguém perguntou se ela iria colocar a pauta de não haver representatividade negra na série Girls (ela estava se preparando para entrevistar Lena Dunham). Então.

Gente, sério.
Por favor.

Eu sei que o feminismo é um movimento plural. Eu compreendo que haja divisões dentro do movimento, que haja discordância de idéias e tudo o mais. Eu totalmente entendo isso. Eu entendo que a pauta das feministas americanas seja diferente da nossa, enquanto a nossa é diferente das feministas indianas. Eu entendo que as nossas prioridades podem mudar de acordo com o país que vivemos, porque tem todo um contexto, toda uma história especial por trás de cada movimento feminista nesse mundo. Não dá para lutar contra a misoginia no Brasil da mesma maneira que o fazem na Ucrânia. Contextos diferentes, feminismos diferentes. Eu entendo isso.

Mas eu me recuso a compreender e aceitar que uma feminista "não dê a mínima para questões raciais". Acho inaceitável.
Não me venham com a história triste de Caitlin usando calcinhas da mãe. Não me venham dizendo "mas ainda recomendarei o livro dela". Não me venham com essas merdas, por favor. Isso não é uma indireta, é apenas porque eu sei que Lola nunca lerá isso. Mas eu tenho certeza que milhares de outras feministas tem a mesma opinião que a de Lola. Porque eu senti um tom suavizador em cima das merdas de Caitlin e eu não tolero suavização. Porque eu sei que se fosse um homem a dizer isso ou mesmo uma mulher, digamos, republicana, sei perfeitamente que todas as feministas odiariam a pessoa forevermente. Que ela seria execrada para sempre como a "pessoa que não dá a mínima para a representatividade dos negros". Mas só porque Caitlin é uma feminista, então ela pode? Ela pode dizer essa merda e vocês passarem a mão na cabeça dela?

Vocês vão continuar recomendando o estúpido livro dela que fala claramente sobre mulheres não fizeram nada demais em toda a nossa história, demonstrando uma ignorância abissal. Sério mesmo? Estou desapontada.

O maior problema das pessoas, no geral, é nunca ver além do próprio umbigo. A galera feminista não deveria continuar perpetuando esse erro, tão típico e imbecil. Mas continua acontecendo. Porque há as feministas brancas, cissexuais, heterossexuais e classe-média e elas continuam propagando o feminismo delas, como se falasse pela voz de todas nós, como se todas nós nos enquadrássemos nessa forma e, cara, não enquadra. Não é um feminismo que pode dialogar comigo. Não é um feminismo que não pode dialogar com uma boa parte das mulheres, porque adivinha só? Elas não são todas brancas ou cis ou hetero ou classe média. E tentar suavizar a questão racial é de uma estupidez gritante. Oh, não me importo que você tenha dito "que foi errado, sim, e que ela merece as críticas". Estou pouco me lixando. O que eu digo é que alguém falou que não dá a mínima para a representação negra na TV (o que é a mesma coisa que dizer: tô pouco me fodendo pra como as negras se sentem) e as próprias feministas a defendem? É isso mesmo? Eu não quero o feminismo de vocês, então.

Se fodem aí no seu mundinho. É o que digo.

O meu feminismo fala com as mulheres negras, índigenas, asiáticas e de diversas outras etnias. O meu feminismo se importa sobre como as negras são vistas na TV, nos filmes, nos livros, nos jogos de videogame, na internet, na sociedade toda. O meu feminismo se importa que os jornalistas se recusem a aprender o nome de Quvenzhane Wallis apenas porque ela é uma criança de nove anos, negra com um nome obviamente não-americano. O meu feminismo se importa com o fato de que as mulheres negras são sexualizadas e tem uma herança de séculos pela escravidão. O meu feminismo se importa, sim, com a auto-estima delas. O meu feminismo se importa se elas são representadas em uma estúpida série de televisão. Esse é o meu feminismo. Eu não quero o feminismo de Caitlin Moran. Eu quero que ela se foda, e o livro dela também. Eu não quero ela dizendo que fala por todas as feministas, porque ela não fala. Eu não quero que a mídia a trate como uma porta-voz do nosso movimento, porque ela não é. Eu quero que ela se dane, assim como sua indiferença ao racismo. Eu não preciso dela, e tenho certeza que as moças negras e pardas também não precisam dela para se fazerem valer. Só porque a mídia dá tanto destaque para as feministas brancas-cis-bla bla bla, não quer dizer que a gente não exista.

Então, foda-se, Caitlin Moran. Você foi uma escrota. Não se atrevam a apoiar essa mulher e depois dizer que são contra o racismo. Eu não vou engolir. Não vou fingir que ela é legal, "apesar de ter sido babaca", porque eu tenho essa tendência a taxar as pessoas: você foi babaca? Nasça e tente de novo. Não vou abraçar ela e dizer sobre como eu quero ler um livro dela, quando eu detesto que o ~feminismo~ dela exclua tantas minorias. Não digam que mulheres como ela falam por mim. Não falam, simplesmente porque elas me excluem em seu patético universo classe média formado de mulheres feministas, brancas, heterossexuais que não fazem idéia de como é ser de outra minoria que não de mulher.

Eu fico muito, muito desapontada ao vê-las sendo defendidas, as declarações polêmicas sendo minimizadas, como se não fossem tão importante. Eu não gosto desse tipo de silenciamento. Então, eu, como uma garota que está muito no meio entre o "ser branca" e o "ser negra", preciso dizer que eu estou furiosa. Eu estou furiosa que feministas achem esse tipo de comportamento aceitável. Eu estou muito, muito brava porque há essas mulheres que estejam pouco se lixando para como eu me vejo na TV. E essas mulheres não são apenas qualquer umazinha que a mídia americana achou. Elas se dizem feministas. Elas se acham exemplos. Elas estão escrevendo livros sobre feminismo e todo mundo fica achando que elas estão falando por mim? É lógico que eu fico brava. Eu fico muito brava com esse tipo de atitude, porque eu sei que a mídia não vai dar atenção para a opinião de alguém que seja como eu. Eu sei que a mídia procura pelas feministas mais boazinhas e simpáticas, e não mulheres como eu. Eu sei que a mídia prefere ignorar solenemente qualquer reinvidicação das minorias, e procura o elemento mais palatável de cada luta e eu sei que Caitlin Moran parece ser uma.

Então, continuem com seu feminismo. Vocês podem dizer o que for. Digam que não se importam com as questões raciais. Vão além. Digam que só é mulher quem nasce com uma vagina. Ignorem as lésbicas. Finjam que bissexuais são pessoas em dúvida. Continuem indo. Façam seu feminismo limpo e bonito. Não é o meu. Eu não quero ignorar quem eu sou para fingir concordar com vocês. E eu não vou fingir que há minorias precisando urgentemente de atenção enquanto vocês dão entrevistas sobre como não usam salto alto. Eu não sou exatamente uma escritora influente, e sequer tenho dinheiro para ajudar as pessoas que gostaria de ajudar. O meu ativismo é de web mesmo, porque é tudo que posso fazer. Mas a internet me deu uma voz e é ela que uso para não permitir que vocês me anulem. Então é isso.

Não me façam olhar para vocês e me perguntar como vocês também são feministas. Só isso. Não me façam ter vergonha de pertencer ao mesmo movimento que vocês.

"Meu feminismo será interseccional ou será uma mentira" (fonte: fuckyeahsubversivekawaii)
[eu sei que não há "uma" na frase, coloquei por vontade própria pra frase ficar mais bonita]

3 comentários:

  1. feminismo é uma mentira

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  2. texto incrível, são feministas como vc que me faz continuar acreditando e defendendo o feminismo na qual faço parte um feminismo que acolhe e defende todas, aquele que olha para as negras e tantas outras minorias.

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  3. Muuito obrigada! Alguém tinha que falar isso!

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Se você for amor, tome um chá, sente no sofá, tire uma soneca, fique à vontade que a casa é tua. Se você não for amor, inclusive sendo homofóbico, misógino, transfóbico, racista, etc., eu excluirei sua postagem. Sim, porque aqui é ditadura da minoria e as pessoas que me amam e/ou me lêem não são obrigadas a lerem sua merda. Então pense duas vezes :)