terça-feira, 8 de janeiro de 2013

dezoito anos em silêncio

Assistindo Perfect Sense no qual a humanidade vai gradualmente perdendo os sentidos como olfato e paladar, eu estava percebendo como a gente simplesmente não se dá conta de como alguns sentidos são tão importantes para gente. A grande parte da humanidade não tem nenhum problema em um dos cinco clássicos sentidos, então vive sem nem perceber o quão depende deles. 

Bem, um dos cinco sentidos sempre me foi muito sensível: a audição. Quando você nasce com uma deficiência em um estado grave, é natural que você tenha toda uma relação especial com o ato de ouvir, com sentimentos muito particulares que você não teria com outro sentido. Porque você meio que percebe que você deveria ter aquilo e não tem, então te falta algo. 

Mas mais do que lidar com isso em relação a você mesmo, você tem que lidar com a forma como a sociedade vê aquilo. O que não é muito fácil, porque as pessoas absolutamente não compreendem o universo de uma pessoa que seja surda. Elas não estão acostumadas a lidarem com pessoas que sejam diferentes de qualquer forma. 

Bem, eu nasci com uma deficiência auditiva que vai de moderada a grave, creio eu. Isso significa que eu uso aparelhos auditivos AASI, que são bem simpáticos e vermelhinhos (♥), e isso significa que quando eu não uso aparelhos, eu escuto pouquissíma coisa. Eu já tinha usado os aparelhos por poucos meses aos 10 anos (pelas minhas memórias bem fracas), mas eu normalmente digo que fiquei 18 anos sem ouvir. Porque eu só comecei a realmente usar os aparelhos e compreender o quanto a deficiência afetou a minha visão do mundo em outubro de 2011. 

Até então, eu não acreditava que a deficiência mudava muita coisa. Eu fazia amigos, eu me comunicava com as pessoas, eu me fazia ser entendida. Eu evitava uma porção de coisas e ainda evito: pedir um lanche no telefone, ligar para resolver um problema com uma operadora, por exemplo, ver filmes nacionais ou mesmo uma novela na TV que não tivesse legenda, ver filmes dublados, uma série de coisas que não me recordo agora.

Só quando eu passei, de fato, a usar aparelhos que passei a ter uma noção muito melhor e mais clara do quanto a audição é um sentido tão importante. Sabe, por mais que já se tenha mais de um ano, eu ainda não consigo fazer algumas coisas muito bem. Por exemplo, eu não consigo falar com uma pessoa sem olhar para ela. Eu ainda faço leitura labial. Eu ainda não consigo ir no cinema de boa e ver um filme dublado ou nacional. Eu ainda lembro de como fiquei tão feliz quando eu fui assistir Valente e entendi tudo de boa, porque era algo realmente inédito para mim. Eu nunca tinha visto um filme no cinema sem legendas e então compreender tudo que estava acontecendo! =3

E eu não consigo falar no telefone muito bem. Assim, eu atendo o telefone e eu converso com as pessoas. É uma coisa que eu consigo fazer. Eu fico meia hora, uma hora no telefone sem grandes problemas. Mas apenas se a pessoa tem uma voz clara e esteja em um local (realmente) silencioso. E, além do mais, às vezes o meu aparelho dá alguma interferência estranha e o som do telefone se mistura aquele chiado e é algo realmente estranho. Então eu só converso com amigos, e esse é o tipo de coisa que eu sei que a maioria dos deficientes auditivos não faz. Porque telefone é realmente problemático. 

Mas a parte que mais me afetou em tudo isso foi, definitivamente, a musical. As pessoas que ouvem perfeitamente desde o nascimento gravam músicas com facilidade e lembram-se de aberturas de novelas, temas de desenhos animados, trilhas sonoras de filmes. Eu nunca tive essas coisas. Eu nunca fui aquela pessoa que consegue reconhecer melodias, nem aquela pessoa que sequer reconhece o instrumento que está sendo tocado. Sim, eu gostava de música, mas era mais ou menos aquela coisa: você está vendo uma árvore pela janela. Mas o vidro está sujo. Você ainda vê a árvore e sabe que ela tem um caule marrom e as folhas verdes. Você sabe que ela é bonita e admira por isso. Mas quando você limpa o vidro, então você percebe o quão a árvore é fascinante. Você nota como ela é rugosa e como seus galhos parecem tão finos, mas suportam o verde das folhas que se torna muito mais vívido, ainda com o orvalho brilhante. Você percebe a grama ao redor da árvore, como ela está mal aparada, e repara que há pequenininhas flores ainda muito tímidas na copa, flores alaranjadas que você sequer percebia quando o vidro estava sujo. É mais ou menos assim a minha relação com a música. 

Eu fiz parte do coral da escola nos últimos dois anos, bem como aulas de leitura e escrita musical. Eu aprendi a tocar algumas coisas na flauta soprano, e eu aprendi a ouvir. É muito diferente aprender a ouvir coisas do cotidiano que eu passava batido (queijo derretendo, o som de "Olá" quando alguém atende no interfone, o barulho do teclado do computador) e aprender a ouvir música propriamente. Música é como a matemática tomando forma, com fórmulas e ritmos específicos. Passar de um tom para outro é uma ação que pode parecer automática, ainda mais quando você lida com música desde que criança, mas não é para mim. Eu ainda preciso ouvir todas as notas para lembrar como elas são, e saber como reproduzir algo com a voz parece praticamente mágica.

Bem, eu ainda quero aprender música. Tendo saído da escola, faz tempo que não canto ou toco flauta. Eu gostaria de aprender outro instrumento e eu quero aprender a ouvir. Ouvir de verdade. Recuperar dezoito anos no qual eu estive em um silêncio que me foi confortável por muito tempo, mas não é mais o suficiente. Eu nunca falei muito disse em Pernície, meu blog anterior, porque eu não sei muito bem como falar a respeito. Mas agora me sinto um pouco mais madura para perceber o quão minha concepção do mundo mudou em um ano de uso dos aparelhos. O quão eu comecei a desenvolver uma memória auditiva, o quão eu comecei a aprender música, o quão mais fácil se tornou para mim socializar com as pessoas, porque eu compreendia melhor o que elas estavam dizendo. Sobre como ficar em uma bolha se tornou insuficiente para mim. 

Eu gostaria de falar mais a respeito nem por mim, porque eu compreendo as minhas limitações e eu sei o que preciso fazer para superá-las. Mas por vocês, os leitores que são pessoas que ouvem perfeitamente o mundo ao seu redor e não fazem idéia de como lidar com pessoas que não ouvem muito bem ou não ouvem nada. Mostrar um pouco do nosso silêncio e de como isso não nos faz estúpidos ou medíocres. Somos apenas pessoas. Com algumas limitações. Apenas precisamos (todos nós, surdos ou ouvintes) nos adaptarmos para que role uma comunicação em via dupla. Só assim rola uma conversa e é tudo o que se precisa para se viver de boa =33

Eu recomendo fortemente os três seguintes links:
Privilégios em ser Ouvinte (em inglês)

não tem muito a ver com o texto, mas achei fofo. fonte: tumblr



2 comentários:

  1. Luninha, acompanho vc desde o nascimento e realmente nunca tive esta dimensao da sua dor. Estamos afastadas a tanto tempo... Queria muito te ter por perto. Mas, me da muito prazer ver a sua superaçao, a sua maturidade. Adoro seu modo de escrever, a clareza das suas ideias. Avante!!! Bjao minha linda! tia nini

    ResponderEliminar
  2. Eu lembro no primeiro ano quando nós realmente nos conhecemos, os primeiros contatos foram um pouco mais complicados, mas depois eu me acostumei com o tom de voz que eu deveria usar perto de você, com falar olhando diretamente, e levando bronca quando algo cobria minha boca!
    Realmente depois que você colocou o aparelho foi uma grande mudança, mas eu admiro todos esses anos que você se esforçou também para se adaptar, nem todos tem essa força. Bom redescobrimento do mundo!

    ResponderEliminar

Se você for amor, tome um chá, sente no sofá, tire uma soneca, fique à vontade que a casa é tua. Se você não for amor, inclusive sendo homofóbico, misógino, transfóbico, racista, etc., eu excluirei sua postagem. Sim, porque aqui é ditadura da minoria e as pessoas que me amam e/ou me lêem não são obrigadas a lerem sua merda. Então pense duas vezes :)