quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

sobre o caso do delegado que foi machista

Sobre o delegado que twittou criticando primeiramente a colega de trabalho por esta ter apresentado atestado, ter se ausentado e então aparecer online. Não demorou muito, o ilustríssimo delegado começou a criticar as mulheres, estas sendo colegas de trabalho, dizendo que, de todas, apenas uma apresentava a coragem necessária para trabalhar na polícia. Sinto informar que os comentários para defender o nobre homem possuem um teor altíssimo de machismo, misoginia e imbecibilidades no geral. Meus comentários pontuais e super relevantes a respeito:

1) Pessoinhas estão protestando vigorosamente na internet contra a exoneração (já acontecida) do sujeito. Eu apenas digo o seguinte: em qualquer lugar do mundo, se você fala mal do seu trabalho e/ou dos seus colegas de trabalho em qualquer rede social, você se sujeita à sofrer expulsão, demissão, exoneração. De qualquer modo, você vai ser convidado a sair. É uma questão de ética: você não fala mal do seu trabalho na internet. Ponto final.

2) O problema não é nem reclamar da moça que faltou ao serviço. O problema está na generalização. Está, pior ainda, na generalização de uma minoria social que ainda hoje está apanhando para se colocar no mundo profissionalmente falando. É 2013 e a gente ainda tem que ouvir que chegamos a um cargo importante porque demos pra alguém. Porque, sim, ainda há delegadas e juízas e uma porrada de mulher que tem que ouvir que não é boa o suficiente e ter sua competência questionada porque, oh-meldelz, é uma mulher. A presidente do Brasil volta e meia tem que receber algum tipo de escárnio que outro presidente não receberia.

3) E aí, brilhantemente, aparecem seres ilustres que sentem uma profunda necessidade de comentarem que a situação é isso aí. Que mulheres são realmente preguiçosas e incompetentes e citam casos específicos. A mocinha que entregou atestado pra fazer compras. A mocinha que deu em cima do chefe. Todas mulheres. Acho absolutamente incrível que vocês só lembrem de mulheres inaptas, desordeiras, preguiçosas, fúteis e incompetentes. Que vocês nunca lembram de um homem que seja assim, e quando lembram, vocês atribuem isso à uma falha no caráter. Mas quando é uma mulher, você aproveita para imediatamente dizer que todo o gênero é assim mesmo.

É a mesma coisa de eu afirmar categoricamente que eu tive uns professores incrivelmente relapsos e incompetentes para tal função. Aí percebi que a semelhança entre eles é o fato de serem homens e a partir daí, eu considerar que os homens são naturalmente relapsos e incompetentes e me incomodar com homens sendo professores. E esquecer que há mulheres sendo relapsas e incompetentes como professoras. Acontece que homens não são uma minoria social. Eu achar isso não significa que a sociedade acha a mesma coisa. Eu vou ser solitária se eu tiver essa opinião. Aliás, eu aprendi que os homens são diferentes um do outro e que o fato de um ser um imbecil, não significa que outros sejam.

Mas vocês não aprenderam que mulheres são pessoas. Vocês aprenderam que mulheres formam uma única massa, quase como um cérebro único pensando a mesma coisa. E que se as suas coleguinhas de trabalho te desagradam como coleguinhas de trabalho, obviamente o resto é a mesma coisa. Se você vê uma dando em cima do chefe, você vai atribuir isso não à ela em especial, mas à toda a categoria feminina. Porque, na sua cabeça, todas as mulheres são representantes do seu gênero. E o que nós fazemos, individualmente, vai influenciar a sua opinião acerca de todo o nosso gênero.

Isso é perigoso por ser um tanto generalizante. Esse tipo de postura retira o nosso direito de sermos humanas, portanto com direito à falhas. E nos desumaniza, o que torna o tratamento dado às mulheres um tanto cruel.

4) Um tipo de coisa que eu não gosto muito é o fato da crítica ser um tanto individual. Esse cara agiu de forma anti-ética, twittando e tudo o mais, mas o foco não deve ser sobre o quão ele foi idiota, mas no fato de que ele recebeu apoio bem expressivo e de como o pensamento dele é parte do que a sociedade pensa sobre o gênero feminino. Quando você passa a questionar só o cara, você acaba focando na coisa errada. É a mesma coisa com as pessoas que ficam criticando "mulheres que dão em cima nos superiores pra se dar bem". Essas pessoas repetem essas merdas por aí e nem se dão conta do que estão falando. E aí você está aí apontando o dedo e criticando a mulher por dar em cima, como se essa fosse uma falha de caráter pertencente unicamente à ela e a sociedade nada contribuísse para isso.

Se você vive em uma sociedade que atribui um claro valor ao seu corpo, é comum, então, que você enxergue a si mesma como um objeto. Se você vive em uma sociedade como a nossa, no qual meninas são incentivadas a arrumar um marido rico ou a ser modelo, então você passa a achar que sua aparência é tudo. Se uma menina já cresce sabendo que a função dela é casar e ter filhos, então não tem nada de anormal que ela siga esse padrão. Nem todas as meninas tem a minha sorte de crescer ouvindo que eu tinha que estudar e ser independente. A maioria das garotas cresce ouvindo que tem que cumprir com as tarefas do lar. Que tem que arrumar um bom marido. E são constantemente cobradas por isso.

E se você vive em uma sociedade no qual as novelas, filmes, livros, etc. giram em torno de como moças sofrem na vida e são salvas por seus príncipes encantados, você cresce aprendendo que você precisa de um homem. Se você cresce ouvindo que precisa de um homem e você já entendeu que você é um objeto, então... me diz aí a consequência disso tudo? Tá óbvio.

(aí você, que vê a mulher como um objeto, algo para ser usado e abusado, vai lá e diz que é um absurdo que ela seja um objeto na hora de conseguir as coisas. Amor, a sua mentalidade é o que faz tudo isso andar do jeito errado. Experimente ver aquela sua coleguinha de trabalho como gente e pare de questionar a competência apenas por ser mulher. Experimente vê-la como gente e atribua as falhas dela à ela, como pessoa, não à ela por ser alguém do sexo feminino)

~ Enfim.
É um pouco cansativo dissertar sobre coisas óbvias e redundantes, mas eu senti necessidade. O mundo seria tão mais confortável se essas coisas fossem óbvias para todo mundo. Muito mais fácil viver.

Mas nem tudo é como a gente quer.

fonte: Women at War (pfvr alguém passe o link pro delegado e ele aprende uma ou duas coisinhas sobre mulheres nas forças armadas no geral)

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