sábado, 5 de janeiro de 2013

Morte Súbita: sobre gente mesquinha e infeliz



// Expectativa

The Casual Vacancy ou Morte Súbita, como foi traduzido aqui no Brasil, é o primeiro livro de J. K. Rowling depois de toda a saga Harry Potter que rendeu uns dez livros, eu acho, com a história e agregados. O negócio é que Harry Potter influenciou toda uma geração, então todo mundo ficou meio que esperando uma grande imensa big obra-prima com esse livro. É compreensível, mas eu sou da opinião de que a pior coisa prum livro é ler ele com a expectativa lá em cima. Sei lá, você meio que fica cheia de esperanças e ou acaba odiando muito porque o livro te decepcionou ou amando muito porque meio que se forçou a isso.

Eu confesso que não esperei muita coisa. Acho difícil Rowling criar outro Harry Potter 2.0, mas eu resolvi dar uma chance porque, né, ela não é uma má escritora. Então bora lá analisar esse livrinho de meras 500 páginas =3


// Premissa básica do livro

Barry Fairbrother é o cara super legal que todos amam e que ocupava a posição de liderança no Conselho de uma cidade tão minúscula que nem cidade é (sério), chamada Pagford. Só que aí em uma infeliz noite, ele vai lá e morre do nada. Causa médica: aneurisma. E então o livro vai abordando como a morte do cara foi como aquele lance do dominó: um vai derrubando o outro, em sequência. É a mesma coisa. Famílias se interessam pela vaga que foi deixada no Conselho ("A Vaga Casual", tradução literal do título), e a disputa pela vaga acaba afetando a vida não só de gente que é realmente envolvida pelo Conselho, mas até mesmo de adolescentes que estão pouco se lixando para o que rola em Pagford ou não. 




// Diversidade

(sou dessas que avalia a diversidade presente e ver como as minorias são representadas. Desculpa aí)

A galera de Pagford é basicamente branca, hetero, cis, o padrão. E eles se orgulham disso, de serem legítimos ~pagfordianos~ de serem gente "decente e honesta". Pense na família Dursley. Agora pense na família Dursley multiplicada muitas vezes, dominando um vilarejo. É por aí. Há uma família sikh na cidade, e eles são tidos como forasteiros, gente estranha. A filha mais nova da família sofre uma discriminação barra-pesada na escola por conta de sua cor de pele, por exemplo, e tudo nela é motivo para ser um alvo. A mãe dela é uma médica super competente e ativa nos assuntos da cidade, porém sempre é vista com desconfiança. Exceto pelo cara legal que morreu.

Em termos de gênero, há uma boa quantidade de mulheres. As personagens femininas vivenciam diversos problemas, como Samantha que experimenta o amargor de querer ter tido uma vida muito mais sensual e dinâmica e tem que se contentar com Pagford e seu maridinho, Ruth a enfermeira que tenta equilibrar as tensões na sua família e Terri que vive o terror de ser viciada em drogas, com o medo constante de não ter mais seu filho sempre. Além disso há a Kay, a assistente social que se mudou de casa por amor, o que não foi exatamente uma boa idéia, e há a Parminder, a médica sikh que enfrenta a constante desvalorização do seu trabalho. 

Existe diversidade também em termos de idade e de classe social. O personagem mais novo é Robbie, com três anos e meio, e há todo o núcleo dos adolescentes que recebe atenção especial. Andrew e Stuart são os principais garotos, ao passo que Krystal, Gaia e Sukhvinder formam as garotas cujas histórias pessoais são bem trabalhadas. E então vamos para os pais e avós de todos esses adolescentes, fora os agregados de idades diferentes. O foco do livro é sempre na família em si. Há, porém, só duas famílias que não seguem o modelo nuclear: Kay e sua filha Gaia, bem como Terri e seus filhos Robbie e Kyristal. Aliás, a família toda de Krystal foge ao modelo nuclear por ser imensa e ela não saber ao certo como ela é estruturada.

As famílias de Pagford, porém, obedecem ao padrão pai-mãe-filhinhos. Isso não quer dizer, porém, que elas sejam felizes ou mesmo saudáveis. Não há uma única família saudável. Não há uma única família que possa gerar pessoas saudáveis. Exceto, talvez, a de Barry que morreu. Mas sua esposa, Mary, diria algo a respeito disso.

Já em termos LGBT, há somente uma única personagem que não é heterossexual. Mas como ela é fora de Pagford, ela aparece somente uma vez, fora as várias outras vezes que ela é mencionada. Porém o lado LGBT é importante nesse aspecto, porque o motivo de ela se manter alheia à Pagford e seu mundinho de hipocrisia é justamente porque a família não a aceita como é. Já em termos de representatividade trans*, não há. Todos os personagens são cissexuais.



// Enredo

Eu não sei quem foi o idiota que inventou que esse livro é suspense. Eu imaginei coisas como um assassinato e então rolar a suspeita de quem matou barry, mas não tem nada disso. Não tem suspense, a menos que você considere ~segredos de família~ como suspense. É mais um drama mesmo. O livro gira todo em volta de como as famílias se reestruturam depois da morte do cara, de como algumas pessoas se candidatam ao cargo e então elas afetam as pessoas em volta. 

Rowling trabalha muito sobre a questão das hipocrisias que existem quando a galera tem que manter as aparências, sobre o "eu quero que você morra envenenado, mas eu gosto de você como pessoa tá?", as falsidades entre pessoas que deveriam manter boas relações. Samantha é uma personagem que é trabalhada nesse sentido: em todo o romance, ela se sente mais e mais cansada de manter as aparências, de fingir que se importa com Pagford, de fingir que está feliz e vai, aos poucos, se enchendo de tudo aquilo. E há também toda uma discussão política: os personagens debatem sobre o que devem fazer com os pobres que vivem em Fields. Alguns personagens querem que Fields seja responsabilidade da cidade vizinha, Yarvil, e acham que é um absurdo o Estado gastar dinheiro para ajudar viciados em drogas. E há outros personagens que fazem questão de afirmarem a importância de se atender essas pessoas.

Barry defendia ajudar as pessoas, mas Howard não quer olhar para elas. Ele considera que a solução é simples: 'não use drogas' e que se as pessoas usam drogas, o problema é delas. Porém Kay tem que lembrar de como existe todo um ciclo e quanto à isso Rowling não poupa uma boa dose de drama: ela retrata o cotidiano de Terri e seus filhos, de como Krystal vive um inferno por conta da mãe, do seu traficante, de toda a vida completamente desajustada. E de como aquele universo que é o normal de Krystal, de como não existe outra coisa, de sua total falta de perspectiva. E de como Terri sofreu também a vida inteira, sofrendo abusos sexuais, para chegar naquela situação. Violência psicológica e física aparecem constantemente não somente na vida de Krystal, mas também na de Andrew que tem que lidar com um pai hiper agressivo e uma mãe passiva.

Sukhvinder tem que lidar com todo o bullying e acaba desenvolvendo depressão, e é interessante constatar que Rowling utilizou Krystal e Sukhvinder para mostrar maneiras diferentes de se lidar com um mundo violento: enquanto Krystal é agressiva, agitada e joga tudo para fora, Sukhvinder é retraída, totalmente tímida e desconta o ódio que sente nela mesma. 

Há personagens que você odeia profundamente, como Simon, por exemplo. Ele é muito odiável. Howard e Shirley também. Eles são fáceis de se odiar, ao passo que você acaba simpatizando com Ruth, por exemplo. Mas há personagens que você inicialmente detesta e só então vai simpatizando, até mesmo se apegando como Samantha e Krystal. Mas não há personagens maus ou personagens bons. Todos são personagens tridimensionais, com diversos defeitos e qualidades, e a gente acaba gostando ou odiando eles dependendo da nossa afinidade com eles. Howard, por exemplo, não é um cara mau nem nada, mas eu não gosto da forma como ele fala de Fields. 

Ao passo que eu simpatizo muito com Samantha porque eu fico toda mexida com ela querendo ter mais sem poder. Você poderia odiar Parminder por ela ser tão má com a filha, mas você não consegue porque você vê como é a vida de Parminder e fica com pena dela também. É um enorme ciclo no qual pessoas se machucam e acabam machucando quem está mais perto. E então todo mundo acaba se ferindo pra valer, criando mais ódio e mágoa. Acho que, no fundo, é esse o tema básico do livro: sobre como você pode escolher quebrar o ciclo de violência. E de como suas escolhas afetam todo mundo. Então quando você escolhe ser egoísta e pensar apenas em você, você acaba afetando a vida de todo mundo. Quando você escolhe dar um sorriso que seja, você pode acabar mudando a vida de uma pessoa.



// Conclusão

No fim, eu gostei muito do livro. Ele é um livro bem mais pesado, considerando que ela só tinha escrito Harry Potter e tal que tem uma vibe mais infantil e tudo o mais. Eu meio que acho que Rowling fez em Morte Súbita tudo que teve vontade de fazer em Harry Potter e não fez, em respeito à imagem que a saga já tinha e tudo o mais. Há bullying pesado, violência física, psicológica e sexual, estupro, automutilação, gente mesquinha e hipócrita, drogas sendo usadas desde maconha até heroína, sexo e, sim, muitos palavrões. E não é um livro que eu recomendo para uma tarde feliz de verão. Eu não consigo acreditar que alguém termine de ler o livro feliz. Não é um livro feliz. 

É um livro sobre mesquinhez humana e suas consequências. Não tem como ser feliz.

3 comentários:

  1. Wiseong,
    adorei sua resenha~! Você conseguiu transmitir nessa análise os diversos ângulos do livro, e eu gostei bastante do enfoque na representatividade das minorias. Confesso que quando se fala de uma cidade pequena, morte de algum figurão importante e uma visão panorâmica (e simultaneamente focalizada) da sociedade local, inevitavelmente eu me remeto a Incidente em Antares, de qualquer modo, consegui sentir bastante a essência Rowling nesse bebê de 500 páginas. Fiquei bastante interessada em lê-lo e voltar à ativa~! E oh, meu primeiro comentário, não podia deixar de dizer: seu blog está um amor de lindeza <3 bjs, linda!

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  2. Eu ainda estou na metade dele, mas posso ver essas coisas também, quem disse que o livro é suspense deve ter feito para "tentar" aumentar as vendas ou algo assim, sem dúvidas é um drama. Particularmente eu estou gostando muito desse outro lado da JK, mostra que ela pode produzir um conteúdo mais "sério".
    Comecei a ler esse livro sem muitas expectativas e esta me surpreendendo, realmente não é um livro feliz, mas é um bom livro. Recomendo a todos que sentirem vontade de lê-lo que o façam sem esperar encontrar algo de Harry Potter ai, é algo diferente, que a maioria dos fãs da escritora ainda não estão preparados eu acho. Ela deveria realmente ter usado um pseudônimo.

    Marina

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  3. Gostei da resenha, vou ler o livro. Tb adorei o blog e o gif. Baci, Nini.

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Se você for amor, tome um chá, sente no sofá, tire uma soneca, fique à vontade que a casa é tua. Se você não for amor, inclusive sendo homofóbico, misógino, transfóbico, racista, etc., eu excluirei sua postagem. Sim, porque aqui é ditadura da minoria e as pessoas que me amam e/ou me lêem não são obrigadas a lerem sua merda. Então pense duas vezes :)